Sussurra em meus ouvidos, eriçando os pelos da nuca, a lembrança de que foram as viagens harrypotterianas as responsáveis por acalentar e solidificar meu sonho mais antigo e mais persistente, porto no qual minha alma se atraca há anos – o de ser escritor. Meu ideário desse ofício difere razoavelmente do modelo um tanto quanto convencionalizado no imaginário dos que vivem distantes da galáxia Livráctea; senso comum que foi tipificado sinteticamente pelo “que chato!” que ouvi de uma ex-colega dos tempos da escola. Um “que chato!” proferido com todo o desdém que faz juz à chatice da palavra c h a t o, direcionada ao sujeito que viveria a maior parte do tempo enclausurado, redigindo os voos personalísticos de imaginação, transmutando o extralinguístico em linguagem, linguistificando o linguistificado.
É uma perspectiva justificadamente mofina para quem nunca conheceu os Êxtases Clarificantes da Leitura.
Quero, com este texto, andar de barco até minha infância (voltarei ao presente), pontuando as variações, concepções, mistificações e formações desse sonho, comum entre tanta gente. Comecemos pela solitude do escritor enquanto ser escrevente.
A mim, principalmente entre os 8 e 14 anos, isso era particularmente atraente. Desengonçado nas relações sociais, enfrentando uma difícil readaptação no Recife após viver sete anos em Manaus, ler era uma das minhas atividades favoritas. Nutria pavor em falar em público...melhor dizendo, pensar em falar em público era suficiente para alterar meus batimentos cardíacos, pressão sanguínea e o escambau. Imagine, então, o quanto me desagradava a ideia de uma noite de autográfos e palestras: procedimentos terríveis & consequências um tanto quanto inevitáveis? Escapáveis, claro!
Para mim, a linguagem escrita era (ainda é, em parte) o meio pela qual eu poderia “tocar” as pessoas. Tocar em camadas mais profundas, que a conversação nem sempre possibilita. Em mim vibrava a vontade de mergulhar outros em meus óasis imaginativo tal qual eu o criaria.
A ideia de que poderia viver da minha cabeça sempre foi um dos meus Propósitos na Existência.
Desde cedo, modelei meu sonho tendo como pressuposto minha iniciativa e autonomia, vendo na figura do escritor um Ideal Máximo a ser alcançado. Recebi franco apoio de pais e familiares, mas deixei o sonho em stand by, esperando sempre que o momento mágico surgisse e, quando isso finalmente acontecesse...
...
...
o quê?
Não chegava a imaginar o que poderia acontecer quando finalmente acontecesse.
Investigando meu coração enquanto escrevo, forço-me a sentir um passado que passou (nem todo passado passa, não é verdade?), como a fuga da socialização &vontade de agir exclusivamente pelo imaginário. Há tantos tipos de escritores quanto há de homens, mulheres, animais e vegetais. Há tantas cores de razão quanto cores que vemos. Demorei a ver que poucos são “só” escritores, a perceber que é uma façanha conseguir se sustentar “só” com isso. Lembro de Xico Sá falando que Jorge Amado foi o único brasileiro a conseguir tal feito em décadas.
O perigo da Idealização está em despachar o sonho para o freezer. Como se faz isso? Basta casá-la com a Postergação.
Bem diferente daquela utopia que faz caminhar, não é Galeano?
Tão congelado ficou esse sonho que deixei de ver por anos a fio qualquer outra coisa no meu rol de possibilidades.
Fascinava-me a ideia de que estava em minhas mãos as chances de transformar vidas através de algumas palavras, fascinação que já não sinto. A meu ver, os outros(eu) podem (posso) auxiliar, mas, em última instância, é cada um que se transforma. Lembro da Preguiça, esse Vilão da Consciência, operando febrilmente. Assim segui vivendo.
Mas eu era o Escolhido. Estava Predestinado.
Obras-primas nasceriam sem muita peleja.
Restava aguardar um pouco e meus dedos fariam o resto quando o momento chegasse. Tsk, tsk, tsk. “Quando as pessoas atingem a compreensão, elas não depositam esperanças no tempo.”(A. Watts) Claro que não me ocorria pensar em como iria concretizar meus ideais sem treino e prática. Aconteceria, pura e simplesmente,
, um momento ,
autosseveridade injusta?
Não. Apenas estou explicitando meu grau de ingenuidade.
Cheguei a escrever alguns capítulos de um projeto de livro que nunca se concretizou. Quase 50 páginas. Os amigos mais próximos chegaram a ler os primeiros capítulos, cujo enredo acabou ficando intricado demais, um grande manancial de perguntas que permanecerá sem respostas. E depois disso...
( inatividade ) ( vácuo) ( stand by) (aridez imaginativa)
Houve a época em que me distanciei da leitura, tendo retornado anos depois às minhas raízes. Uma manobra do destino da qual não cabe falar aqui. Tudo o que escrevi até agora, neste post, não passa de uma tentativa de compreender como mantive uma Ideia Fixa – aquilo que o anarquista individualista Max Stirner combatia tanto. Reformulando-a, destruo-a e remodelo-a melhor porque os sonhos devem ser Ideias Cambiantes, às vezes Caóticas, mas Interacionais, moduláveis de acordo com as realidades inteligidas & sentidas.
De fato, essa inércia se situou no período que cursei o Ensino Fundamental e Médio – Stephen King era meu Grande Ídolo. Fui me bacharelar em Jornalismo, curso que concluí recentemente (2013.2). De acordo com a minha memória, essa foi uma decisões mais intuitivas de minha vida, sem qualquer planejamento racional.
Ainda pensava que era através do Jornalismo que eu teria oportunidades de conhecer mais a realidade das coisas, da qual me sentia tão afastado, além de me sujeitar voluntariamente a situações onde enfrentaria meus medos comunicacionais. Parecia a mim, em suma, um Laboratório Mais Prático: viver no meio daqueles que exercitam essa prática continuamente-conjuntamente (redação de jornal), onde feedbacks são dados a todo momento – vejo hoje esses feedbacks (externos) como verdadeiros propulsores evolucionários, feedforwards (internos) mesmo. Não só na escrita, como em tudo na vida.
Nítido em minha mente o primeiro dia de aula na Universidade Católica de Pernambuco (não estudei para o UFPE, nem tive estímulo, pois todos na família falavam que a melhor escola de jornalismo do Estado era a Católica). A professora perguntou a todos os alunos a razão de terem escolhido Jornalismo. Meu coração já estava aos saltos quando chegou a minha vez. Fui franco: “Escolhi Jornalismo porque quero ser escritor.” Ela replicou: “Mas por que não escolheu Letras?” Acho que falei algo como “não sei, não era o que queria” e dei de ombros.
Bem, até bem recentemente, eram esses meus dados mnemônicos sobre a escolha do curso. Ouvi outra versão, a da minha mãe, que disse estar eu absolutamente convencido de cursar Letras. Ela me aconselhou a falar com alguns professores. Supostamente, após essas conversas, das quais nada lembro, acabei mudando de ideia. Em rápido treino de imaginação, posso imaginar os vários indagamentos e minha resposta única, imutável: “Quero ser escritor.” Talvez tenham me perguntando se o trabalho de crítica literária me interessava, ou feito qualquer outras dessas perguntas, e, diante de minhas negativas, sugeriram que Jornalismo fosse a área mais promissora. Algo perdura desde aquela época: minha paixão pela Verdade, quase um fetiche.
Seja como for, o que está feito, está feito. Não me arrependi da escolha, pelo contrário, cresci muito como ser humano nos cincos anos que durou meu bacharelado (contando os seis meses que tranquei o curso por causa de uma viagem à Irlanda e os outros seis em que prorroguei pagando uma cadeira extra por causa do meu estágio no Jornal do Commercio). É mais do que natural encontrar no curso pessoas que amam ler e escrever. Do pouco material que escrevera até então, era fartamente elogiado pelos parentes mais próximos – os piores críticos possíveis, como bem disse Raimundo Carrero.
Após o estágio no JC, onde recebi vários choques, percebi o quanto estava LONGE, MUITO LONGE de escrever realmente bem. Tomava muito tempo para escrever poucas linhas, quebrava a cabeça. Não estou falando de adequação às padronizações textuais/direcionamentos ideológicos, já que nisso não há muito mérito e qualquer um é capaz de fazê-lo, mas às dificuldades de estruturar à minha maneira o meu relato do real. Como dizia Noam Chosmky, enquanto aquele desafio se refere ao desempenho, o último diz respeito à competência.
O que entendia eu disso? De ser escritor?
Havia fugido da pergunta por tempo demais. As pressões circunstanciais finalmente me punham na atividade pela qual eu sonhara por tanto tempo e, seja porque eu não estava falando sobre aquilo que queria (o que é verdade apenas em parte, pois havia matérias que excitavam até minha glândula pineal), seja por outros motivos, eu não estava feliz.
Tanto tempo fantasiando entorpeceu meus sentidos, a magia vaticinada não ocorreu.
Ou melhor, ocorria ocasionalmente. O que percebi mais fortemente, mais visceralmente, foi que o caminho era muito mais longo do que imaginação fora capaz de conceber.
Sim, tive minhas crises escritenciais, pois é realmente notória a facilidade com que posso delirar totalmente se mergulhado por muito tempo no oceano dos signos. Há talvez um pouco de pressão extra provinda de minha consciência.
Quero ser um mestre. Quero ser um dos Melhores. Noutras palavras, para lembrar o psicomago Jodorowsky: desprezo o que sou hoje. Calma. Não é pra tanto. Penso mais em viver no presente e isso de querer ser o melhor deixou de ser uma Meta a Ser Alcançada. Está mais para uma Missão a Ser Vivida Aqui e Agora.
Com Aleister Crowley aprendi a “não ambicionar resultados”, dica que foi extremamente preciosa em minha vida, não só na escrita. Esses perigosos delírios do mergulhador talvez malpreparado foram o gatilho para o tema do meu livro-reportagem (TCC): leitura no Recife sob as perspectivas neurológicas, psicológicas, filosóficas, emocionais, intelectuais, sociais, pedagógicas, jurídicas até (projetos de remição de pena por leitura). Escrever é um dos melhores remédios para escapar do feitiço ocasional que às vezes subjuga o(a) Leitor(a). Foi meu primeiro projeto a longo prazo, uma experiência radical e nova intitulada RECIFE LÊ!Linguagem escrita: transformadora & em transformação. Darei mais informações assim que publicá-lo. Está enraizado em meu sistema de crenças não teológicas que nossas capacidades podem (nos) surpreender se formos desafiados a contento.
Um dos que me ajudaram a embasar meu pensamento sobre os significados mais sutis e profundos do ofício foi Jean-Paul Sartre. Em seu livro Que é a Literatura?, ele esboça as perguntas essenciais que o escritor engajado deveria tomar como princípios norteadores:
1) você tem alguma coisa que vale a pena dizer?
2) que aspectos do mundo você quer desvendar? que mudanças quer trazer ao mundo por esse devendamento?
3) porque você falou disto e não daquilo, e já que você fala para mudar, porque deseja mudar isso e não aquilo?
Não enveredarei por aí, analisando ponto por ponto; que antes sirva de reflexão para TU QUE ESTÁS ME LENDO. Se me acompanhou até aqui, é porque com alguma coisa se identificou - pelo menos é que creio, neste tempo-que-falta-tempo. A primeira pergunta foi justamente a que tocou mais fundo meu coração. O que vivi/aprendi é muito pouco para produzir leituras fortes e memoráveis tais como almejo. É perfeitamente evidente na minha carreira enquanto leitor que os escritores cujas escritos refletiam facetas das próprias vidas/realidades exprimiam mais acuradamente aquilo que queriam. O escocês Irvine Welsh foi meu primeiro bom choque nesse sentido, com Pornô.
Eis o pensamento que abalou minhas sinapses: a de não ter nada de muito importante a dizer que já não tenha sido dito melhor por outros antes de mim. Não sei se pensava no receptor ou/e na relação eu-público; suponho que eu tenha sido mais autorreferenciado, algo de mim para mim. O “público” nada mais é do que a multiplicidade e heterogeneidade de gostos, valores e tudo o mais. Decidir escrever do coração é escrever tendo como ponto de partida a minha imaginação/experiência, pressupondo a desimportância das convenções mercadológicas enquanto reguladoras desse processo.
Pois é, posso ser um pouco romântico.
Convém lembrar como surgiu a noção e função de Autoria, rastreada a fundo por Michel Foucault. O autor, cujo nome próprio dá identidade e autoridade ao texto, nasceu como Transgressor. No decorrer da Idade Média, o escritor não era senão o escriba da Palavra dada por Deus, sobretudo na Eurpa. Distinguia-se, no francês antigo, os “écrivains” (quem escrevia texto que permanecia na forma de manuscrito e não circulava) e os “auteurs” (que escrevia e publicava as obras impressas). Lembremos que nessa época os textos que iam de encontro à ortodoxia política ou religiosa eram perseguidos e censurados. O autor, considerado como autor, segundo Foucault, era inicialmente um “fauteur” (fomentador); logo, precisava ser identificado!*
As primeiras ocorrências sistemáticas de nomes de autores encontram-se nos diversos Index Librorum Prohibiturum. A relação do escritor e do leitor era intermediada com frequência pela locução oral; era mais próxima, mais íntima, mais tribal. Não havia direitos autorais – será que os escritores daquela época pensavam em assinar seus textos? será que lhes passava pela cabeça a necessidade de serem reconhecidos pela própria criação? Quem estava dizendo não importava tanto quanto o que estava sendo dito... será que era assim? A Qualidade e/ou a Performance acima da Reputação e do Status (enquanto Ideias)?
Não estou dizendo que a criação é necessariamente um reflexo do seu criador, mas que meu propósito, enquanto macaco afim de escalar as maiores árvores literárias, é refletir criativamente, via grafia, aquilo que apenas eu poderia fazer. Acredito que tenha ficado claro que minha concepção de escritor não é de um profissional no exercício de sua profissão, não é sequer a de alguém familiarizado com as diversas cenas literárias regionais. Partilho da opinião do professor Edvaldo Pereira Lima, que vê os escritores como Xamãs. Xamãs da polis, eu acrescentaria.
Lembro particularmente de Eckhart Tolle** falar que nosso fazer tem qualidade proporcional ao nosso ser, mas o ser seria algo primário e o fazer algo secundário. Tenho, pois, trabalhado muito sobre o ser, como fica evidente pelos vídeos tântricos divulgados abaixo. Chega um ponto, porém, em que fica visível que o trabalho deve ser paralelo, já que, de qualquer forma, trabalhar sobre o ser não é também fazer o próprio ser a fim de fazer melhor? Claro que sim.
Encontrar a própria voz e burilá-la é uma busca pessoal muito profunda e complexa. É justo falar aqui que comecei a escrever esse texto pensando em como falar de uma pseudodecisão: a de que desisti de ser escritor, entendendo-se escritor por todas as conotações diferenciadas acima, o que inclui alguém com o desejo de ser disputado entre as editoras (necessidades narcísicas).
Não esqueço nunca de uma determina sensação, muito sutil, que senti mais de uma vez, conversando com a jornalista Flávia de Gusmão nos fumódromos do Jornal do Commercio. A sensação de ser um potencial personagem na mente dela. Ela, que parecia escrever a realidade com os olhos, esquadrinhava as oportunidades; quem sabe para introduzir minha maneira de ser e falar em um certo (con)(texto) a ser redigido. Qualquer pessoa que não teve a sensibilidade danificada e já sentiu algo parecido, sabe a que me refiro, pois, afinal, mesmo que tenha sido impressão/projeção de minha consciência, eu mesmo já agi assim muitas vezes. Natural ouvir alguma coisa e querer utilizá-la posteriormente, como, quando ouvi, por exemplo, um passageiro no ônibus falar para o outro que o violão é um "instrumento infinito". Poesia no ar. Ou ainda: "Já viu padeiro comprar pão, rapaz?"
Mas, nesse caso, eu não era coparticipante. Por que falei isso? Para mim, a escrita não jornalística deve ser um processo rememorado posteriormente, 100% depois.Nossas observações e percepções neurossensoriais são sujeitas a falhas - porque não falhar com a Imaginação depois em nome da Beleza, do Sublime?
É isso. Desistir de ser escritor é renunciar temporariamente ao Grande e Único Projeto de Minha Vida e escrever cada vez mais. Sei que todas essas palavras não são mais do que um longo solilóquio; por mais que tente, não conseguirei esgotar tudo o que penso a respeito da minha relação com a escrita. O essencial é que preciso viver mais para escrever melhor, mas sem a ociosidade da adolescência.
Ezra Pound enfatizou que a maioria dos escritores nunca ultrapassa o estágio em que “fazem algo parecido” com que o já leram ou ouviram. Qualquer um que tenha o hábito de escrever sabe o quanto as últimas leituras são capazes de influenciar na própria escrita. O amigo Esdras Bezerra disse-me uma vez que Drummond lia deliberadamente textos policialescos de má qualidade para se livrar dessa tendência demasiado humana.
Quero ser universal. Quero ser compreendido em outras culturas, e no futuro.
Para isso, preciso viver em meu tempo, preciso ser contemporâneo e também – porque não? – um pouco extemporâneo. Sinto que comunicarei com muito mais intensidade e impacto os meus escritos quando eu penetrar e viver mais profundamente o real. Acredito que a melhor ficção provém de compreensões superiores do vivente, e não do mero domínio de técnicas e recursos literários, por si sós insuficientes para produzir algo novo, revolucionarimente criativo ou/e original.
Aí também entra a questão do meio, do esgotamento das possibilidades literárias, da discussão do fim da literatura, da experimentação com outras mídias, do “não existe arte revolucionária sem forma revolucionária” de Maiakóvski.
Em o ABC da Literatura, Pound conseguir pôr de forma primorosa e condensada o modo como penso e visualizo o escrever mágico. Ele concorda que as melhores obras “brotam”, quase que espontâneas, assomos de genialidade, mas só DEPOIS que a técnica se tornou uma “segunda natureza” , e o escritor não precisa pensar em CADA DETALHE.
Reformei meu pensamento e realoquei apropriadamente a relevância de minha produção sígnica, menos um fim e mais um meio (escrito) dentre outros tantos meios possíveis. Hoje consigo me ver como antropólogo, professor, assessor de imprensa, historiador, garçom, cineasta, roteirista, ad finitum. Abri de novo o portão das possibilidades. Voltei a cultivar a mente aberta.
Escrevi isso tudo para compreender melhor e destruir, de uma vez por todas, esse espectro fantasmagórico de mim mesmo no futuro.

