quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Tantra Ocidental - Meditação Dinâmica




Os exercícios em questão foram formulados na década de 70 pelo psicoterapeuta estadunidense Christopher Hyatt, fundador da editora de livros libertários New Falcon Publications, com a colaboração do escritor Israel Regardie. Inimigos de dogmas /tabus e promotores da liberdade, os dois empreenderam importantes trabalhos para a evolução da consciência humana. 

Meu intento aqui é torná-los mais acessíveis, pois sinto que nenhum brasileiro deve ser obrigado a aprender inglês para iniciar esta prática. As instruções encontradas nas descrições de cada vídeo e aqui no Raios Sinápticos estavam indisponíveis na língua portuguesa. Eu as traduzi, fiel, livre e diretamente dos livros originais. Os vídeos-acessórios buscam ajudar na compreensão inicial. São meras demonstrações. Não são vídeos-aula. 

A natureza desses exercícios psicofísicos é tântrica. Com isso, estou afirmando que a prática deles é, simultaneamente, desrobotizante (quebra padrões viciados de pensamento e comportamento), evolucionária (continuum, vida), curativa ("derrete" neuroses autolimitantes, combate a depressão), libertadora (desbloquea "nós" neurossomáticos; revela tesouros insuspeitados dentre suas aptidões; propulsiona a criatividade, a inteligência, a sensibilidade) e energizante (desperta a Kundalini). 

Para que o oculto se manifeste. Para que o potencial se realize. 

Não é hiperbólico afirmar que este sistema meditativo é um dos mais poderosos conjuntos de métodos de expansão da consciência já elaborados. A orientação, tal como foi arquitetada originalmente, é de caráter individual. Se for embarcar nessa jornada, é aconselhável criar um registro/diário, em áudio ou escrito, de tudo o que passou a sentir/pensar durante/após a prática. 

Quando Undoing Yourself with Energized Meditation and other devices foi publicado pela primeira vez em 1982, uma recomendação de Israel Regardie ganhou ares de slogan: se não queres realmente mudar, não leve esse livro a sério. Em outras palavras: não pratique esses exercícios diariamente. Na contracapa, em letras garrafais: AVISO! ALGUMAS PESSOAS ODEIAM ESTE LIVRO! Especialmente quem é obediente a dogmas, avesso à mudanças e/ou ferrenhamente apegado ao "ego" . O que é o ego? Sem elucubrações psicanalíticas, ego, aqui, é simplesmente uma ficção social com serventias concretas. 

Aos interessados em se aprofundar na filosofia subjacente aos exercícios, os outros livros em evidência são: Secrets of Western Tantra: The Sexuality of the Middle Path, Tantra without Tears e Tantra - A Suprema Compreensão. 

Algumas das fontes humanas que influenciaram os autores e este sistema: Wilhelm Reich, Timothy Leary, George Gurdjieff, Aleister Crowley, Bagwan Shree Rajneesh. Se esses nomes não dizem nada a você, que tal pesquisar e estudar um pouco? Ou muito? 

Por ora, estou disponibilizando a todos as instruções do Aquecimento I, o Aquecimento II e o Aquecimento III. A sequência não precisa ser realizada linearmente (I-II-III); você pode ficar uma semana com o mesmo aquecimento, ou um mês, ou variar todo dia, aleatoriamente, contanto que pratique diariamente - isto é, se quer se beneficiar ao máximo.

É importante estar ciente que, ao desenterrarmos quantidades imensuráveis de energias bioespirituais submersas, lidamos com processos altamente imprevisíveis. As Preliminares I, II, III e IV, em português, estarão ao dispor das pessoas que queiram ir adiante. Basta entrar em contato comigo pelo e-mail igorsmgv@gmail.com. Haverá filtros. O canal, não tenham dúvidas, estará sempre aberto para tirar dúvidas. (hê!) 

Dedicos essas instruções tântricas a todos que aspiram a uma vida mais feliz, iluminada, saudável, criativa, integrada, espontânea, vivaz, ativa, lúdica, lúcida. Mais guerreira, se necessário! 

Usufrua com sabedoria e perseverança.

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O melhor resumo que eu vi na internet sobre Tantra: http://www.yoga.pro.br/artigos/36/

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

O golaço, o dilema e Van Gogh

O mérito do golaço antológico depende da intenção do jogador de futebol? Para dizer de outro modo, a bela e ambígua trajetória da bola até esvoaçar as redes perde o encanto caso tenha sido sem querer? O debate é antigo no meio futebolístico e os posicionamentos metafísicos que ela pressupõe impedem a possibilidade de se chegar a um consenso final.
- GOL! GOOOL! NO ÂNGULO! - brada um eufórico Ricardo- Nossa, muuuuuito de fora da área!
Passada a vibração, o espírito humano ressurge o dilema na provocação vinda do melhor amigo, o Joaquim, torcedor do outro time, claro.
-Mas, foi de propósito?
A paisagem é clichê: mesa de madeira assentada na calçada e cerveja encasacada com a tradicional camisinha brasileira. Os personagens, atípicos: dois professores de filosofia da universidade local. A liturgia, quase estática: os ritos começavam sempre uma hora antes do jogo e perduravam por uma ou duas horas depois. A igreja, exclusiva: o Bar do Tonhão, o qual estes torcedores religiosos mantinham uma fidelidade que as operadores de telefonia celular e internet sonham diuturnamente ter com seus clientes.
O Ricardo, se torcedor normal, apenas troçaria zombeteiro: o placar 1 x 0 continua 1 x 0, seja o gol contra, de mão, de bunda, de pênalti inexistente, de bola que não passou da linha, de propósito ou não. Mas Ricardo, por benção, maldição ou indiferença, não ligava muito pra “normalidade” e não iria rejeitar o convite do parceiro para pôr em prática a justa argumentação.
- Por todos os orixás e babalorixás, Joaquim! Como saberemos nós? O repórter vai lá perguntar no intervalo: ei, Rodoaldo, você mirou mesmo lá ou tentou cruzar? Rodoaldo vai dizer que sim ou que não. E por causa disso passaremos a saber? Quem não acredita, vai continuar sem acreditar e ainda vai acusá-lo de desonestidade, dirá “que assuma sua glória, mas admita a sorte!”. Quem acredita, pode ser desmentido ou ter as esperanças corroboradas, mas a prova é a voz final do próprio jogador, ser humano também imperfeito, também falível e também não muito confiável. Não mentimos para nós mesmos frequentemente?
Joaquim retrucou entusiasticamente:
-“Temos a arte para não morrer ante a verdade”*, não é isso? Não podemos eliminar a incerteza, de fato, mas não adianta escamotear a questão: foi o acaso que desenhou esse gol? Se assim foi, que beleza ele tem de fato? Se assim foi, Rodoaldo é a marionete que ganhou os créditos, mas poderia ter sido qualquer um. Poderia ter sido você, poderia ter sido eu! Só um maluco tentaria encobrir o goleiro daquela distância, ele lançou a bola pro companheiro de time!
Esvaziando rapidamente sua tulipa, Ricardo sequer permite que o silêncio fique audível:
-Está bem. Gostaria de te recordar de um outro maluco; este, um holandês pintor. Visualize, por favor, os quadros de Van Gogh, o gênio que, suspeitam, era epiléptico, bipolar, o escambau. Talvez não seja, mas leve na hipótese. Estiveste lá no museu dele em Amsterdã. Pronto? Esse quadro fica menos belo se você descobrir que o Van tava em alguma crise mental quando o pintou? Por acaso, fica ele mais belo porque foi pintado por um Van lúcido? Causalidade invertida, Joaquim. Os dedos pintaram a obra-prima, o pé chutou aquela bola, o desenho está em ação! Por todos os orixás e babalorixás, esse mito de que qualquer zé-ninguém é capaz de reproduzir lances que parecem acaso é pura bobagem. O Belo não é redutível dessa maneira! É o fato quem é interpretado, não é a interpretação que vira fato.**
Ricardo se permite uma pausa para tomar fôlego e conclui:
- E, sem ligar para nada disso, a pintura, digo, o gol, está aí nos replays em todas as tevês do país pra quem ligar nesse canal!
Joaquim reflete por um instante, dissecando cada palavra dita pelo companheiro em busca de alguma incongruência. Nada. Reavalia sua opinião inicial. Está prestes a se dar por vencido quando, aos 42 do segundo tempo, Renílson, jogador do seu time – que estava atrás no placar -, dribla três dentro da área, olha pro canto direito do goleiro e...GOOOOOOOOOOOOOOOLLL! Joaquim urra e esmurra o ar.
Ricardo olha enfurecido para a tela pra logo ouvir Joaquim arrematar:
-Por Cristo, Maomé, Buda, Kardec, homem, tu vai querer discutir que esse golaço aí foi sem querer?
Ricardo, ciente de que voltaram à estaca zero, queda em silêncio, esmagado pelo golvisivelmente intencional. Pensa como chateia e entedia a certeza da certeza, como instiga a certeza da dúvida.
Sorumbático, murmura:
-Mas, e a graça do colóquio?
Joaquim mira o parceiro no olho:
-E o que falavas do belo agora há pouco, não conta?

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*Citação do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900)
**Alusão à Nietzsche. Para ele, não havia fenômenos morais, apenas interpretações morais dos fenômenos.