segunda-feira, 3 de outubro de 2016

A Real História dos Chackras

Os seis fatos mais importantes que você nunca soube sobre os chackras

Por Hareesh

Nos últimos cento e poucos anos, o conceito de chackras, ou centros de energia sutil dentro do corpo, foi capturado pela imaginação ocidental mais do que virtualmente qualquer outro ensinamento da tradição do yoga. Ainda assim, como acontece com a maior parte dos conceitos que derivam de fontes em sânscrito, o Ocidente (com exceção de alguns poucos estudiosos e praticantes) tem falhado miseravelmente em apreender o que os chackras significavam em seu contexto original e como se deve realizar uma prática com eles. Este post busca retificar essa situação até um certo ponto. Se você está sem tempo, pode pular os comentários contextuais que estou pra fazer e pular direto para a lista dos seis fatos fundamentais sobre chackras que os iogues modernos desconhecem. (Veja o post-scriptum para uma definição precisa de "chackra").


Inicialmente, deixe-me esclarecer que por "Ocidente" não me refiro apenas à cultura europeia-americana mas também aos aspectos da cultura indiana moderna que são informados por essa matrix. Visto que, a essa altura do milênio, é praticamente impossível encontrar uma forma de ioga na Índia que não seja influenciada pelas ideias europeias&americanas sobre si, quando uso o termo "Ocidente" estou incluindo todos os ensinamentos do yoga na Índia de hoje existentes na língua inglesa.


Pois bem, vou te falar sem rodeios: em sua grande maioria, os iogues ocidentais compreendem praticamente nada sobre os chackras no tocante ao que os criadores do conceito consideravam importante. Se leres um livro como o famoso Rodas da vida: Um guia para você entender o sistema de chackras, de Anodea Judith, ou outros livros inspirados por este, tu não estás lendo um trabalho filosófico de yoga mas sim um trabalho de ocultismo ocidental, baseado em três fontes principais: 1) trabalhos ocidentais anteriores de ocultismo que pegaram emprestado termos em sânscrito sem realmente entendê-los (a exemplo de Os Chackras, escrito pelo teosofista C.W. Leadbeater em 1927) 2) a tradução falha de John Woodroffe (1918) de textos sobre os chackras escritos em sânscrito, em 1577 3) livros do século XX escritos por gurus indianos baseados nas fontes 1) e 2). Livros sobre chackras baseados em uma compreensão fina das fontes originais em sânscrito existem apenas no universo erudito.

"Mas isso importa?", iogues me perguntam. "Eu me beneficiei tanto do livro de Anodea Judith e outros livros similares, não leve isso de mim!" Não vou levar e não posso. Qualquer que seja o benefício que tenhas recebido, independentemente da fonte, é real se me dizes que é. Estou aqui apenas para te falar duas coisas: primeiro, quando autores ocidentais modernos escrevem sobre chackras afirmando que estão apresentando sabedoria antiga, eles estão mentindo - mas eles não sabem que estão, porque não podem garantir a validade de suas fontes materiais (já que não leem sânscrito). Segundo, para aqueles que estão interessados, estou aqui para saberes um pouco sobre o significado de conceitos iogues em seu contexto original (porque acontece que sou um estudioso do sânscrito e meditante que prefere as formas tradicionais). Somente tu podes avaliar se isso te beneficiará. Não estou reinvidicando que o antigo é intrinsecamente melhor. Não estou tentando argumentar que não há valor espiritual no ocultismo ocidental. Estou apenas aproximando a verdade histórica em palavras simples, tanto quanto posso. Portanto, vou começar agora: os seis fatos fundamentos sobre os chakras que os iogues modernos desconhecem.

1) Não há apenas um sistema de chackras na tradição original. Há vários



Há tantos! A teoria do corpo sutil e os centros de energias denominados cakras (ou padmas, ãdhãras, laksyas etc) provém da tradição do Yoga Tântrico, que floresceu entre os anos 600-1.300 D.C. e continua vivo atualmente. No Yoga Tântrico amadurecido (depois dos anos 900, aprox.), cada um dos ramos da tradição articulou um sistema diferente de chackras, e algumas ramificações articularam mais de um sistema. Sistemas de cinco chackras, de seis chackras, de sete, de oito, de nove, de dez, de quinze, de vinte e um, de vinte e oito e mais ainda foram ensinados, dependendo de qual texto tu se debruças. O sistema de 7-chackras (ou, tecnicamente 6 + 1) que os iogues modernos sabem a respeito é apenas um de vários, e tornou-se dominante por volta do século XVI (veja o ponto #4 abaixo).

 Agora, sei o que pensas - "Mas qual é o sistema correto? Quantos chackras existem de verdade?" E isso nos traz ao nosso primeiro grande mal-entendido. Os chackras não são como órgãos no corpo físico; eles não são fatos estabelecidos que podemos estudar como médicos-cirurgiões estudam as glândulas endócrinas. O corpo energético é uma realidade extraordinariamente fluida, como se espera de qualquer coisa que seja não-física e supersensível. O corpo energético pode apresentar, experiencialmente falando,um sem-número de centros de energia, a depender da pessoa e da prática iogue que ela esteja realizando.

Tendo dito isso, há alguns poucos centros que são encontrados em todos os sistemas - especificamente, no abdômen inferior, no coração e no topo da cabeça, porquanto esses são os três lugares no corpo onde humanos de qualquer parte do planeta experienciam fenômenos emocionais e espirituais. Porém, com exceção destes, existe uma variedade imensa nos sistemas de chackras encontrados na literatura original. Um não está mais "correto" do que o outro, exceto no tocante a práticas específicas. Por exemplo, se estás praticando com os cinco elementos, use o sistema de cinco chackras (veja o ponto #6 abaixo). Se estás internalizando a energia de seis diferentes deidades, use o sistema de seis chackras. Dã, certo? Mas esse pedaço crucial de informação ainda não alcançou o yoga no Ocidente.


Estamos apenas entrando no buraco do coelho, Alice. Queres aprender mais?


2) Os sistemas de chackras são prescritivos, não descritivos. 

Este talvez seja o ponto mais importante. Fontes na língua inglesa tendem a apresentar o sistema de chackras como um fato existencial, usando linguagem descritiva (como "o muladhara fica na base da espinha, tem quatro pétalas" e assim em diante). Mas na maior parte das fontes originais em sânscrito, não somos instruídos sobre o modo como as coisas são; é-nos oferecido uma prática iogue específica: temos que visualizar um objeto sutil feito de luz colorida, com o formado de uma lótus ou uma roda giratória, em um ponto específico do corpo, e então pronunciamos sílabas mântricas para um propósito específico. Quando compreendes isso, o ponto #1 passa a fazer mais sentido. Os textos são prescritivos - eles te falam o que deves fazer para atingir uma finalidade específica por meio de métodos místicos. Quando a fonte em sânscrito fala, em estilo elíptico, "lótus de quatro pétalas na base do corpo" devemos entender "o iogue deve visualizar uma lótus de quatro pétalas..." (Veja o ponto #5 para mais informações sobre isso). 

3) Os estados psicológicos associados com os chackras são completamente modernos e ocidentais.

Em incontáveis websites e em incontáveis livros, lemos que o muladhara chackra está associado com sobrevivênia&segurança, que o manipura chackra está associado com vontade de poder&autoestima, e assim em diante. O iogue educado deve saber que toda a associação de chackras com estados psicológicos é uma inovação ocidental moderna que começou com Jung. Talvez tais associações representem realidades experimentadas por algumas pessoas (contudo, ocorre usualmente em função do efeito priming*). Certamente não as encontramos nas fontes originais em sânscrito. Há apenas uma exceção da qual estou ciente, e trata-se do sistema de dez chackras de iogues músicos que falei em outro post. Mas, mesmo neste sistema do século XIII, não encontramos cada chackra associado a uma emoção específica ou estado psicológico; em vez disso, cada pétala do lótus de cada chackra é associado a uma emoção ou estado em particular, e parece não haver um padrão por meio do qual poderíamos rotular o chackra como um todo. 


Isso não é tudo. Praticamente todas as associações encontradas no livro da Anodea Judith não têm base em qualquer fonte indiana. Cada chackra, fala-nos Judith, está associado com uma certa glândula, certas malfunções corporais, um certo metal, mineral, planta, planeta, exercício de yoga, carta de tarô, um sefirot do misticismo judeu (!) e um arcanjo da tradição cristã (!!). Nenhuma dessas associações existe nas fontes originais. Judith, ou seus professores, fizeram-nas com base na percepção de similaridades. O mesmo vale para os óleos essenciais e cristais que outros livros e websites afirmam corresponder a certos chackras.  (Devo assinalar que Judith é uma pessoa adorável cujo trabalho beneficiou muitos. Isto não é pessoal)


Não estou dizendo que colocar um certo tipo de cristal em seu umbigo quando estás com problemas de autoestima e imaginar que o cristal está purificando o manipura chackra não o ajuda a se sentir melhor. Talvez ajude, depende da pessoa. Enquanto essa prática certamente não é tradicional, e não foi testada através de gerações (ora, é justamente isso o que determina o valor da tradição, na verdade), os deuses sabem que há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar o meu cérebro racional.

Mas, a meu ver, as pessoas devem saber quando o pedigree de uma prática é de algumas décadas, e não de muitos séculos. Se a prática tem valor, então não é necessário falsificar sua procedência, certo?

4) O sistema de 7-chackras não deriva de uma escritura, mas de um tratado escrito em 1577.

O sistema de chackras que os iogues ocidentais seguem provém de um texto sânscrito escrito por um homem chamado Purnananda Yati. Ele finalizou este texto (o Shat-Chakra-Nirupana ou "Explanação dos Seis Chackras", que é na verdade o capítulo seis de um trabalho mais extenso) em 1577. 

Em uma versão anterior desse post, chamei o sistema de 7-chackras 'tardio e de alguma forma atípico'. Depois de alguns dias, percebi que havia me equivocado - uma versão mais simples do mesmo sistema de 7-chackras pode ser encontrada em uma escritura póstuma do século XIII chamada Sarada-Tilaka ("Ornamento de Sarasvati")embora esse texto deixe bem claro que existem múltiplos sistemas de chackras (como o sistema de 12 ou 16 chackras). Entretanto, boa parte dos iogues (tanto ocidentais quanto indianos) conhecem o sistema de 7-chackras somente por meio do trabalho de Purnananda (século XVI), ou melhor, por meio de uma tradução relativamente incoerente e confusa feita por John Woodroffe em 1918. Ainda assim, esse texto é importante para muitas linhagens na Índia atualmente. Teria sido assim se não houvesse a tradução de Woodroffe? Duvido bastante, visto que há pouquíssimas pessoas na Índia hoje que leem sânscrito fluentemente.

Mais importante, porém, é o fato de que a própria tradição considera os textos das escrituras infalíveis e os seres humanos, falíveis. Portanto, é irônico que iogues modernos tratem o sistema de 7-chackras de Purnananda como divinamente revelado. Pessoalmente, não creio que qualquer coisa escrita em palavras pode ser considerada infalível, mas se queres reverenciar um ensinamento iogue como divinamente revelado, faz mais sentido fazer isso com um texto que alega tal possibilidade - como as escrituras tântricas originais (compostas antes de 1300). É evidente que Purnananda baseia seu trabalho em escrituras prévias, antigas, mas isso não significa que ele as tenha compreendido perfeitamente (veja mais no ponto #6 abaixo). Em resumo, o sistema de 7-chackras que tu conheces fundamenta-se em uma tradução falha de um texto que não é uma escritura. Isso não quer dizer que seja inválido, apenas problematiza sua hegemonia.

Perceba que o Budismo Tântrico (isto é, do Tibete) costuma preserva formas antigas e, de fato, o sistema de 5-chackras é dominante nessa tradição (assim como o sistema fundamental dos 3-bindus). Para conhecer o sistema de 5-chackras tal como é encontrado no tantra clássico, leia meu livro Tantra Illuminated. 

5) O propósito de um sistema de chackras é funcionar como modelo para nyãsa

Para os autores originais, o principal propósito de qualquer sistema de chackras é funcionar como modela para nyãsa, o que significa "instalar" mantras e deidades (energias) em pontos específicos do corpo sutil. Então, apesar de milhares de pessoas estarem fascinadas com os chakras hoje em dia, quase ninguém está usando-os para atingir os propósitos aos quais foram destinados. Está tudo certo. De novo, não estou aqui para dizer que ninguém está errado, mas sim para educar aqueles que estejam interessados.


As mais notáveis características dos sistemas de chackras presentes nas escrituras originais são essas duas: 1) os sons místicos do alfabeto sânscrito estão distribuídos nas petálas de todos os chackras de um sistema e 2) cada chackra está associada com uma deidade hindu específica. Isso se deve ao fato de que o sistema de chakras é, antes de mais nada, um modelo para nyãsa. Na prática da nyãsa, tu visualizas uma sílaba mântrica específica em um específico local de um específico chackra no seu corpo energético enquanto silenciosamente entoa o som. Claramente, essa prática está imersa em um contexto cultural específico no qual os sons da linguagem sânscrita são vistos como vibrações singularmente poderosas capazes de trazer liberação espiritual e benefícios mundanos através de meios mágicos. Invocar a imagem e a energia de uma deidade específica de um chackra específico é também uma prática cultural particular; ainda que iogues ocidentais possam entender o que essas deidades significam, e a prática tem potencial para ser significativa para eles também, apesar de que provavelmente não tão significativa quanto para alguém que cresceu com essas deidades como ícones paradigmáticos gravados em seu subconsciente.


As chamadas deidades causais (karana-devatã) figuram vastamente em todo sistema de chackras. Essas deidades formam uma sequência fixa. Do chackra mais baixo até o mais elevado, elas são Indra, Brahma, Vishnu, Isvara, Sadasiva e Bhairava, embora o primeiro e o último não apareçam com frequência, dependendo do número de chackras. A última deidade da lista das deidades causais não é nunca a deidade definitiva de um sistema, pois essa deidade (seja quem for) está entronada no sahasrara ou acima da coroa da cabeça (que, tecnicamente, não corresponde a um chackra, visto que os chackras, por definição, são perfurados pela Kundalini em seu caminho ascendente, seja ou não o sahasrara o destino final). Portanto, Bhairava (a forma mais esotérica de Shiva) inclui-se na lista de deidades causais somente se for transcendido pela Deusa.

6) As sílabas-semente não acompanham os chackras, mas os elementos que estão instalados nos chackras

Isso é mais simples do que parece. Foi dito a ti que a sílaba-semente (bija ou mantra de uma sílaba só) do muladhara chackra é LAM. Não é. Em nenhuma fonte sânscrita, nem no trabalho truncado e sincrético de Purnananda. E o mantra do svadhisthana chackra não é VAM. Espera...O QUÊ? É simples: LAM é a sílaba-semente do elemento terra, que está instalado no muladhara na maioria das práticas de visualização de chackras. VAM é a sílaba-semente do elemento água, que está instalado no svadhisthana (pelo menos no sistema de 7-chackras que tu conheces). E assim em diante: RAM é a sílaba do Fogo, YAM do Ar, e HAM do Espaço/Éter.

Então, o ponto principal é que os mantras fundamentais associados com os primeiros cinco chackras em qualquer website que encontrares não pertencem a esses chackras, mas sim aos elementos neles instalados. É importante saber isso caso desejes instalar um desses elementos em um lugar diferente. "Nossa! Posso fazer isso?" Absolutamente. Quais efeitos pensas que vais gerar em suas relações se sempre instalar o elemento ar no centro cardíaco? (Lembre-se: YAM é o mantra do elemento Ar/Vento, não do anahata chackra). Já percebeste que os iogues americanos modernos têm relações bem instáveis? Poderá isso estar conectado com o fato de continuamente se invocar o elemento Ar para a dimensão do coração? Naaaahhh...(Posso tirar uma gracinha agora porque somente uma porcentagem pequena dos meus leitores me lerá até aqui). Talvez queiras instalar o elemento terra no coração de vez em quando, porque evidentemente estar grounded faz bem ao coração. Nesse caso, é super útil saber que LAM é o mantra do elemento terra e não do muladhara chackra. (Note que, tradicionalmente, mesmo que os elementos possam ser instalados em diferentes lugares do corpo, a sequência deles não poderá ser alterada. Noutras palavras, os elementos podem "subir" ou "descer" dependendo da prática, mas Terra é sempre o mais "baixo", seguido de Água, etc).


Além disso, algumas das figuras geométricas associadas com os chackras hoje em dia também pertencem mais apropriadamente aos elementos. Terra é tradicionalmente representada por um quadrado amarelo, Água por uma lua crescente, Fogo por um triângulo vermelho apontado para baixo, Ar por um hexagrama ou estrela de seis pontas, e o Espaço/Éter por um círculo. Quando veres essas figuras na ilustração dos chackras, saiba que elas são, na verdade, representações desses elementos e não uma geometria inerente à particularidade de cada chackra.


Isso me traz ao último ponto: mesmo uma fonte sânscrita pode ser confusa. A título de exemplo, no texto do século XVI de Purnananda - a base do popular e moderno sistema de chackras - os cinco Elementos estão instalados nos primeiros cinco chackras do sistema de 7-chackras. Mas isso não funciona realmente, pois em todos os sistemas clássicos o elemento Espaço se localiza na coroa da cabeça, porque é a área em que os iogues experienciam uma abertura expansiva para o espaço infinito. Espaço é o elemento que se dissolve no infinito, e por isso precisa estar no topo da cabeça. Eu poderia especular que Purnananda instalou o Espaço no chackra laríngeo porque ele viveu um tempo de adesão dogmática cresccente à tradição sem reflexão crítica - uma tendência que, infelizmente, segue existindo. E a tradição que ele recebeu foi do ramo Kaula, em que as deidades causais clássicas "desceram" para dar espaço a deidades mais elevadas (especificamente, Bhairava e a Deusa). Os elementos foram acriticamente fusionados às deidades e chackras a que estavam associados previamente. [Dito isto, não é algo óbvio se Purnananda desenhava com base em fontes da tradição Kaula. Em vez de entronar a Deusa no sahasrara, como seria o esperado em um sistema Kaula de 7-chackras, encontramos lá Paramasiva, provavelmente por influência do Vedanta].

Olhem, mal arranhamos a superfície deste assunto. Não, não tô brincando. É realmente complexo, como se percebe ao dar uma folheada na literatura erudita, a exemplo do trabalho de Dory Heilijgers-Seelen ou de Gudrun Buhnemann. Demanda uma paciência incomum e tremendo foco só de ler trabalhos desse nível, imagina produzi-los. Então aqui vai o que eu espero que seja o resultado deste post: alguma humildade. Menos alegações de autoridade quando se fala de temas realmente esotéricos. Talvez menos professores de yoga dizendo a seus estudantes que sabem tudo sobre os chackras. Poxa, eu me sinto abatido pela complexidade das fonte originais, e isso com doze anos de sânscrito na bagagem. 


Estamos falando de territórios inexplorados em sua maior parte. Portanto, quando o assunto é chackras, não alegue que sabe a verdade. Fale a seus estudantes de yoga que todo e qualquer livro sobre chackras apresenta possivelmente apenas um modelo. Então, porque não segurar mais suavemente as crenças que adquiriste com o yoga, enquanto continua aprendendo? Vamos admitir que não compreendemos realmente essas antigas práticas iogues ainda; e, em vez de buscar ser uma autoridade de uma versão supersimplificada delas, podes convidar a ti mesmo e a teus estudantes a olharem mais claramente, mais honestamente, mais cuidadosamente e mais sem julgamentos para a própria experiência interior.


Afinal de contas, tudo o que um mestre do yoga já experienciou está ao teu alcance também.



Imagem do século XVII de vários chackras, atribuída a Rãjasthãn.



P.S.: Este post teve uma circulação mais ampla do que eu estava acostumado (o autor se refere à difusão dessas informações nos Estados Unidos)e algumas pessoas que não me conhecem intepretam meu tom meio seco como arrogância ou sarcasmo. Na verdade, tenho o coração mais doce do que parece. Por favor, leia a minha biografia para se certificar das minhas qualificações para fazer as afirmações que faço. E, se estiveres no Colorado, venha a uma das minhas aulas!


P.S.²: Alguns leitores disseram que não ofereci uma definição precisa de chackra no post. Então aqui vai: "Nas tradições tântricas, chackras (Skt. cackras) são pontos de foco para meditação no corpo humano, visualizados como estruturas de energia semelhantes a discos ou flores nos pontos em que um certo número de nadis ou meridianos convergem. Eles são estruturas conceituais, porém fenomenologicamente fundamentadas, já que tendem a se localizar nos lugares em que os seres humanos experienciam energias emocionais e espirituais, e a forma como são visualizados é reflexo de experiências visionárias tidas por meditantes". 

P.S.³: (do tradutor) O link da matéria original está aqui: The Real Story on Chackras. O autor do texto atende pelo nome de Hareesh, nascido Cristopher Wallis. Sua síntese biográfica encontra-se aqui: Quem é ele?. Ressalto que a grafia de algumas palavras não corresponde ao original apenas em relação à acentuação, por limitação própria do teclado, configurado na língua portuguesa. Espero ter te beneficiado de alguma forma. Namastê!



*Para saber do que se trata o efeito priming,  o Google explica.

A Real História dos Chackras

OS SEIS FATOS MAIS IMPORTANTES QUE VOCÊ NUNCA SOUBE SOBRE OS CHACKRAS


Nos últimos cento e poucos anos, o conceito de chackras, ou centros de energia sutil dentro do corpo, foi capturado pela imaginação ocidental mais do que virtualmente qualquer outro ensinamento da tradição do yoga. Ainda assim, como acontece com a maior parte dos conceitos que derivam de fontes em sânscrito, o Ocidente (com exceção de alguns poucos estudiosos e praticantes) tem falhado miseravelmente em apreender o que os chackras significavam em seu contexto original e como se deve realizar uma prática com eles. Este post busca retificar essa situação até um certo ponto. Se você está sem tempo, pode pular os comentários contextuais que estou pra fazer e pular direto para a lista dos seis fatos fundamentais sobre chackras que os iogues modernos desconhecem. (Veja o post-scriptum para uma definição precisa de "chackra").


Inicialmente, deixe-me esclarecer que por "Ocidente" não me refiro apenas à cultura europeia-americana mas também aos aspectos da cultura indiana moderna que são informados por essa matrix. Visto que, a essa altura do milênio, é praticamente impossível encontrar uma forma de ioga na Índia que não seja influenciada pelas ideias europeias&americanas sobre si, quando uso o termo "Ocidente" estou incluindo todos os ensinamentos do yoga na Índia de hoje existentes na língua inglesa.


Pois bem, vou te falar sem rodeios: em sua grande maioria, os iogues ocidentais compreendem praticamente nada sobre os chackras no tocante ao que os criadores do conceito consideravam importante. Se leres um livro como o famoso Rodas da vida: Um guia para você entender o sistema de chackras, de Anodea Judith, ou outros livros inspirados por este, tu não estás lendo um trabalho filosófico de yoga mas sim um trabalho de ocultismo ocidental, baseado em três fontes principais: 1) trabalhos ocidentais anteriores de ocultismo que pegaram emprestado termos em sânscrito sem realmente entendê-los (a exemplo de Os Chackras, escrito pelo teosofista C.W. Leadbeater em 1927) 2) a tradução falha de John Woodroffe (1918) de textos sobre os chackras escritos em sânscrito, em 1577 3) livros do século XX escritos por gurus indianos baseados nas fontes 1) e 2). Livros sobre chackras baseados em uma compreensão fina das fontes originais em sânscrito existem apenas no universo erudito.

"Mas isso importa?", iogues me perguntam. "Eu me beneficiei tanto do livro de Anodea Judith e outros livros similares, não leve isso de mim!" Não vou levar e não posso. Qualquer que seja o benefício que tenhas recebido, independentemente da fonte, é real se me dizes que é. Estou aqui apenas para te falar duas coisas: primeiro, quando autores ocidentais modernos escrevem sobre chackras afirmando que estão apresentando sabedoria antiga, eles estão mentindo - mas eles não sabem que estão, porque não podem garantir a validade de suas fontes materiais (já que não leem sânscrito). Segundo, para aqueles que estão interessados, estou aqui para saberes um pouco sobre o significado de conceitos iogues em seu contexto original (porque acontece que sou um estudioso do sânscrito e meditante que prefere as formas tradicionais). Somente tu podes avaliar se isso te beneficiará. Não estou reinvidicando que o antigo é intrinsecamente melhor. Não estou tentando argumentar que não há valor espiritual no ocultismo ocidental. Estou apenas aproximando a verdade histórica em palavras simples, tanto quanto posso. Portanto, vou começar agora: os seis fatos fundamentos sobre os chakras que os iogues modernos desconhecem.

1) Não há apenas um sistema de chackras na tradição original. Há vários

Há tantos! A teoria do corpo sutil e os centros de energias denominados cakras (ou padmas, ãdhãras, laksyas etc) provém da tradição do Yoga Tântrico, que floresceu entre os anos 600-1.300 D.C. e continua vivo atualmente. No Yoga Tântrico amadurecido (depois dos anos 900, aprox.), cada um dos ramos da tradição articulou um sistema diferente de chackras, e algumas ramificações articularam mais de um sistema. Sistemas de cinco chackras, de seis chackras, de sete, de oito, de nove, de dez, de quinze, de vinte e um, de vinte e oito e mais ainda foram ensinados, dependendo de qual texto tu se debruças. O sistema de 7-chackras (ou, tecnicamente 6 + 1) que os iogues modernos sabem a respeito é apenas um de vários, e tornou-se dominante por volta do século XVI (veja o ponto #4 abaixo).

 Agora, sei o que pensas - "Mas qual é o sistema correto? Quantos chackras existem de verdade?" E isso nos traz ao nosso primeiro grande mal-entendido. Os chackras não são como órgãos no corpo físico; eles não são fatos estabelecidos que podemos estudar como médicos-cirurgiões estudam as glândulas endócrinas. O corpo energético é uma realidade extraordinariamente fluida, como se espera de qualquer coisa que seja não-física e supersensível. O corpo energético pode apresentar, experiencialmente falando,um sem-número de centros de energia, a depender da pessoa e da prática iogue que ela esteja realizando.

Tendo dito isso, há alguns poucos centros que são encontrados em todos os sistemas - especificamente, no abdômen inferior, no coração e no topo da cabeça, porquanto esses são os três lugares no corpo onde humanos de qualquer parte do planeta experienciam fenômenos emocionais e espirituais. Porém, com exceção destes, existe uma variedade imensa nos sistemas de chackras encontrados na literatura original. Um não está mais "correto" do que o outro, exceto no tocante a práticas específicas. Por exemplo, se estás praticando com os cinco elementos, use o sistema de cinco chackras (veja o ponto #6 abaixo). Se estás internalizando a energia de seis diferentes deidades, use o sistema de seis chackras. Dã, certo? Mas esse pedaço crucial de informação ainda não alcançou o yoga no Ocidente.

Estamos apenas entrando no buraco do coelho, Alice. Queres aprender mais?

2) Os sistemas de chackras são prescritivos, não descritivos. 

Este talvez seja o ponto mais importante. Fontes na língua inglesa tendem a apresentar o sistema de chackras como um fato existencial, usando linguagem descritiva (como "o muladhara fica na base da espinha, tem quatro pétalas" e assim em diante). Mas na maior parte das fontes originais em sânscrito, não somos instruídos sobre o modo como as coisas são; é-nos oferecido uma prática iogue específica: temos que visualizar um objeto sutil feito de luz colorida, com o formado de uma lótus ou uma roda giratória, em um ponto específico do corpo, e então pronunciamos sílabas mântricas para um propósito específico. Quando compreendes isso, o ponto #1 passa a fazer mais sentido. Os textos são prescritivos - eles te falam o que deves fazer para atingir uma finalidade específica por meio de métodos místicos. Quando a fonte em sânscrito fala, em estilo elíptico, "lótus de quatro pétalas na base do corpo" devemos entender "o iogue deve visualizar uma lótus de quatro pétalas..." (Veja o ponto #5 para mais informações sobre isso). 

3) Os estados psicológicos associados com os chackras são completamente modernos e ocidentais.

Em incontáveis websites e em incontáveis livros, lemos que o muladhara chackra está associado com sobrevivênia&segurança, que o manipura chackra está associado com vontade de poder&autoestima, e assim em diante. O iogue educado deve saber que toda a associação de chackras com estados psicológicos é uma inovação ocidental moderna que começou com Jung. Talvez tais associações representem realidades experimentadas por algumas pessoas (contudo, ocorre usualmente em função do efeito priming*). Certamente não as encontramos nas fontes originais em sânscrito. Há apenas uma exceção da qual estou ciente, e trata-se do sistema de dez chackras de iogues músicos que falei em outro post. Mas, mesmo neste sistema do século XIII, não encontramos cada chackra associado a uma emoção específica ou estado psicológico; em vez disso, cada pétala do lótus de cada chackra é associado a uma emoção ou estado em particular, e parece não haver um padrão por meio do qual poderíamos rotular o chackra como um todo. 

Isso não é tudo. Praticamente todas as associações encontradas no livro da Anodea Judith não têm base em qualquer fonte indiana. Cada chackra, fala-nos Judith, está associado com uma certa glândula, certas malfunções corporais, um certo metal, mineral, planta, planeta, exercício de yoga, carta de tarô, um sefirot do misticismo judeu (!) e um arcanjo da tradição cristã (!!). Nenhuma dessas associações existe nas fontes originais. Judith, ou seus professores, fizeram-nas com base na percepção de similaridades. O mesmo vale para os óleos essenciais e cristais que outros livros e websites afirmam corresponder a certos chackras.  (Devo assinalar que Judith é uma pessoa adorável cujo trabalho beneficiou muitos. Isto não é pessoal)

Não estou dizendo que colocar um certo tipo de cristal em seu umbigo quando estás com problemas de autoestima e imaginar que o cristal está purificando o manipura chackra não o ajuda a se sentir melhor. Talvez ajude, depende da pessoa. Enquanto essa prática certamente não é tradicional, e não foi testada através de gerações (ora, é justamente isso o que determina o valor da tradição, na verdade), os deuses sabem que há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar o meu cérebro racional.

Mas, a meu ver, as pessoas devem saber quando o pedigree de uma prática é de algumas décadas, e não de muitos séculos. Se a prática tem valor, então não é necessário falsificar sua procedência, certo?

4) O sistema de 7-chackras não deriva de uma escritura, mas de um tratado escrito em 1577.

O sistema de chackras que os iogues ocidentais seguem provém de um texto sânscrito escrito por um homem chamado Purnananda Yati. Ele finalizou este texto (o Shat-Chakra-Nirupana ou "Explanação dos Seis Chackras", que é na verdade o capítulo seis de um trabalho mais extenso) em 1577. 

Em uma versão anterior desse post, chamei o sistema de 7-chackras 'tardio e de alguma forma atípico'. Depois de alguns dias, percebi que havia me equivocado - uma versão mais simples do mesmo sistema de 7-chackras pode ser encontrada em uma escritura póstuma do século XIII chamada Sarada-Tilaka ("Ornamento de Sarasvati")embora esse texto deixe bem claro que existem múltiplos sistemas de chackras (como o sistema de 12 ou 16 chackras). Entretanto, boa parte dos iogues (tanto ocidentais quanto indianos) conhecem o sistema de 7-chackras somente por meio do trabalho de Purnananda (século XVI), ou melhor, por meio de uma tradução relativamente incoerente e confusa feita por John Woodroffe em 1918. Ainda assim, esse texto é importante para muitas linhagens na Índia atualmente. Teria sido assim se não houvesse a tradução de Woodroffe? Duvido bastante, visto que há pouquíssimas pessoas na Índia hoje que leem sânscrito fluentemente.

Mais importante, porém, é o fato de que a própria tradição considera os textos das escrituras infalíveis e os seres humanos, falíveis. Portanto, é irônico que iogues modernos tratem o sistema de 7-chackras de Purnananda como divinamente revelado. Pessoalmente, não creio que qualquer coisa escrita em palavras pode ser considerada infalível, mas se queres reverenciar um ensinamento iogue como divinamente revelado, faz mais sentido fazer isso com um texto que alega tal possibilidade - como as escrituras tântricas originais (compostas antes de 1300). É evidente que Purnananda baseia seu trabalho em escrituras prévias, antigas, mas isso não significa que ele as tenha compreendido perfeitamente (veja mais no ponto #6 abaixo). Em resumo, o sistema de 7-chackras que tu conheces fundamenta-se em uma tradução falha de um texto que não é uma escritura. Isso não quer dizer que seja inválido, apenas problematiza sua hegemonia.

Perceba que o Budismo Tântrico (isto é, do Tibete) costuma preserva formas antigas e, de fato, o sistema de 5-chackras é dominante nessa tradição (assim como o sistema fundamental dos 3-bindus). Para conhecer o sistema de 5-chackras tal como é encontrado no tantra clássico, leia meu livro Tantra Illuminated. 

5) O propósito de um sistema de chackras é funcionar como modelo para nyãsa

Para os autores originais, o principal propósito de qualquer sistema de chackras é funcionar como modela para nyãsa, o que significa "instalar" mantras e deidades (energias) em pontos específicos do corpo sutil. Então, apesar de milhares de pessoas estarem fascinadas com os chakras hoje em dia, quase ninguém está usando-os para atingir os propósitos aos quais foram destinados. Está tudo certo. De novo, não estou aqui para dizer que ninguém está errado, mas sim para educar aqueles que estejam interessados.

As mais notáveis características dos sistemas de chackras presentes nas escrituras originais são essas duas: 1) os sons místicos do alfabeto sânscrito estão distribuídos nas petálas de todos os chackras de um sistema e 2) cada chackra está associada com uma deidade hindu específica. Isso se deve ao fato de que o sistema de chakras é, antes de mais nada, um modelo para nyãsa. Na prática da nyãsa, tu visualizas uma sílaba mântrica específica em um específico local de um específico chackra no seu corpo energético enquanto silenciosamente entoa o som. Claramente, essa prática está imersa em um contexto cultural específico no qual os sons da linguagem sânscrita são vistos como vibrações singularmente poderosas capazes de trazer liberação espiritual e benefícios mundanos através de meios mágicos. Invocar a imagem e a energia de uma deidade específica de um chackra específico é também uma prática cultural particular; ainda que iogues ocidentais possam entender o que essas deidades significam, e a prática tem potencial para ser significativa para eles também, apesar de que provavelmente não tão significativa quanto para alguém que cresceu com essas deidades como ícones paradigmáticos gravados em seu subconsciente.

As chamadas deidades causais (karana-devatã) figuram vastamente em todo sistema de chackras. Essas deidades formam uma sequência fixa. Do chackra mais baixo até o mais elevado, elas são Indra, Brahma, Vishnu, Isvara, Sadasiva e Bhairava, embora o primeiro e o último não apareçam com frequência, dependendo do número de chackras. A última deidade da lista das deidades causais não é nunca a deidade definitiva de um sistema, pois essa deidade (seja quem for) está entronada no sahasrara ou acima da coroa da cabeça (que, tecnicamente, não corresponde a um chackra, visto que os chackras, por definição, são perfurados pela Kundalini em seu caminho ascendente, seja ou não o sahasrara o destino final). Portanto, Bhairava (a forma mais esotérica de Shiva) inclui-se na lista de deidades causais somente se for transcendido pela Deusa.

6) As sílabas-semente não acompanham os chackras, mas os elementos que estão instalados nos chackras

Isso é mais simples do que parece. Foi dito a ti que a sílaba-semente (bija ou mantra de uma sílaba só) do muladhara chackra é LAM. Não é. Em nenhuma fonte sânscrita, nem no trabalho truncado e sincrético de Purnananda. E o mantra do svadhisthana chackra não é VAM. Espera...O QUÊ? É simples: LAM é a sílaba-semente do elemento terra, que está instalado no muladhara na maioria das práticas de visualização de chackras. VAM é a sílaba-semente do elemento água, que está instalado no svadhisthana (pelo menos no sistema de 7-chackras que tu conheces). E assim em diante: RAM é a sílaba do Fogo, YAM do Ar, e HAM do Espaço/Éter.

Então, o ponto principal é que os mantras fundamentais associados com os primeiros cinco chackras em qualquer website que encontrares não pertencem a esses chackras, mas sim aos elementos neles instalados. É importante saber isso caso desejes instalar um desses elementos em um lugar diferente. "Nossa! Posso fazer isso?" Absolutamente. Quais efeitos pensas que vais gerar em suas relações se sempre instalar o elemento ar no centro cardíaco? (Lembre-se: YAM é o mantra do elemento Ar/Vento, não do anahata chackra). Já percebeste que os iogues americanos modernos têm relações bem instáveis? Poderá isso estar conectado com o fato de continuamente se invocar o elemento Ar para a dimensão do coração? Naaaahhh...(Posso tirar uma gracinha agora porque somente uma porcentagem pequena dos meus leitores me lerá até aqui). Talvez queiras instalar o elemento terra no coração de vez em quando, porque evidentemente estar grounded faz bem ao coração. Nesse caso, é super útil saber que LAM é o mantra do elemento terra e não do muladhara chackra. (Note que, tradicionalmente, mesmo que os elementos possam ser instalados em diferentes lugares do corpo, a sequência deles não poderá ser alterada. Noutras palavras, os elementos podem "subir" ou "descer" dependendo da prática, mas Terra é sempre o mais "baixo", seguido de Água, etc).

Além disso, algumas das figuras geométricas associadas com os chackras hoje em dia também pertencem mais apropriadamente aos elementos. Terra é tradicionalmente representada por um quadrado amarelo, Água por uma lua crescente, Fogo por um triângulo vermelho apontado para baixo, Ar por um hexagrama ou estrela de seis pontas, e o Espaço/Éter por um círculo. Quando veres essas figuras na ilustração dos chackras, saiba que elas são, na verdade, representações desses elementos e não uma geometria inerente à particularidade de cada chackra.

Isso me traz ao último ponto: mesmo uma fonte sânscrita pode ser confusa. A título de exemplo, no texto do século XVI de Purnananda - a base do popular e moderno sistema de chackras - os cinco Elementos estão instalados nos primeiros cinco chackras do sistema de 7-chackras. Mas isso não funciona realmente, pois em todos os sistemas clássicos o elemento Espaço se localiza na coroa da cabeça, porque é a área em que os iogues experienciam uma abertura expansiva para o espaço infinito. Espaço é o elemento que se dissolve no infinito, e por isso precisa estar no topo da cabeça. Eu poderia especular que Purnananda instalou o Espaço no chackra laríngeo porque ele viveu um tempo de adesão dogmática cresccente à tradição sem reflexão crítica - uma tendência que, infelizmente, segue existindo. E a tradição que ele recebeu foi do ramo Kaula, em que as deidades causais clássicas "desceram" para dar espaço a deidades mais elevadas (especificamente, Bhairava e a Deusa). Os elementos foram acriticamente fusionados às deidades e chackras a que estavam associados previamente. [Dito isto, não é algo óbvio se Purnananda desenhava com base em fontes da tradição Kaula. Em vez de entronar a Deusa no sahasrara, como seria o esperado em um sistema Kaula de 7-chackras, encontramos lá Paramasiva, provavelmente por influência do Vedanta].

Olhem, mal arranhamos a superfície deste assunto. Não, não tô brincando. É realmente complexo, como se percebe ao dar uma folheada na literatura erudita, a exemplo do trabalho de Dory Heilijgers-Seelen ou de Gudrun Buhnemann. Demanda uma paciência incomum e tremendo foco só de ler trabalhos desse nível, imagina produzi-los. Então aqui vai o que eu espero que seja o resultado deste post: alguma humildade. Menos alegações de autoridade quando se fala de temas realmente esotéricos. Talvez menos professores de yoga dizendo a seus estudantes que sabem tudo sobre os chackras. Poxa, eu me sinto abatido pela complexidade das fonte originais, e isso com doze anos de sânscrito na bagagem. 

Estamos falando de territórios inexplorados em sua maior parte. Portanto, quando o assunto é chackras, não alegue que sabe a verdade. Fale a seus estudantes de yoga que todo e qualquer livro sobre chackras apresenta possivelmente apenas um modelo. Então, porque não segurar mais suavemente as crenças que adquiriste com o yoga, enquanto continua aprendendo? Vamos admitir que não compreendemos realmente essas antigas práticas iogues ainda; e, em vez de buscar ser uma autoridade de uma versão supersimplificada delas, podes convidar a ti mesmo e a teus estudantes a olharem mais claramente, mais honestamente, mais cuidadosamente e mais sem julgamentos para a própria experiência interior.

Afinal de contas, tudo o que um mestre do yoga já experienciou está ao teu alcance também.



Imagem do século XVII de vários chackras, atribuída a Rãjasthãn.


P.S.: Este post teve uma circulação mais ampla do que eu estava acostumado (o autor se refere à difusão dessas informações nos Estados Unidos)e algumas pessoas que não me conhecem intepretam meu tom meio seco como arrogância ou sarcasmo. Na verdade, tenho o coração mais doce do que parece. Por favor, leia a minha biografia para se certificar das minhas qualificações para fazer as afirmações que faço. E, se estiveres no Colorado, venha a uma das minhas aulas!

P.S.²: Alguns leitores disseram que não ofereci uma definição precisa de chackra no post. Então aqui vai: "Nas tradições tântricas, chackras (Skt. cackras) são pontos de foco para meditação no corpo humano, visualizados como estruturas de energia semelhantes a discos ou flores nos pontos em que um certo número de nadis ou meridianos convergem. Eles são estruturas conceituais, porém fenomenologicamente fundamentadas, já que tendem a se localizar nos lugares em que os seres humanos experienciam energias emocionais e espirituais, e a forma como são visualizados é reflexo de experiências visionárias tidas por meditantes". 

P.S.³: (do tradutor) O link da matéria original está aqui: The Real Story on Chackras. O autor do texto atende pelo nome de Hareesh, nascido Cristopher Wallis. Sua síntese biográfica encontra-se aqui: Quem é ele?. Ressalto que a grafia de algumas palavras não corresponde ao original apenas em relação à acentuação, por limitação própria do teclado, configurado na língua portuguesa. Espero ter te beneficiado de alguma forma. Namastê!

*Para saber do que se trata o efeito priming,  o Google explica.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Deixa a respiração fluir
Deixa o vento afagar
Deixa o sol aquecer
Deixa a chuva molhar

Deixa o corpo se entregar
         O Prazer é o maior inimigo da guerra
Deixa o pensamento passar
         A melhor amiga da meditação se chama Presença

Deixa de lado a estupidez dos outros
        A inteligência se atrai por mais inteligência
        Sabedoria sem humor é como um erudito sem tesão
        O silêncio profundo, às vezes, é o mais eloquente dos discursos
Deixa de lado os próprios preconceitos
       A ignorância trabalha a serviço da demência coletiva
       A ilusão de conhecimento é sempre - cuidado! - autoilusão
       A arrogância só estufa o peito porque não conhece dificuldades sérias

Deixa tuas lutas te tornarem mais forte
Deixa tuas forças irem à exaustão
Deixa teus sonhos bem alimentados
Deixa tua ação orar
Deixa tua oração agir
Deixa, por último, ou em primeiro, a rebeldia consciente se insurgir:
                                "Isto, não vou deixar, não!"


quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Estelit A


Presente, como uma bomba-relógio que nunca estoura, o A, maiúsculo, vermelho, da tinta ideológica que corre nas veias, da matiz sangrenta do pensamento, com os característicos traços que transbordam o caractere A.
Pintado na coxa, pichado nas costas de muros, pedras. Anarquismo concreto. Cruzando a cozinha da ocupação, pula ao meu olho a capa. Desobediência civil. Thoreau. Presente. O anarquismo está presente no Estelita. 

Os discursos proferidos – vociferados em assembleias – não falam a palavra, que é dita, bendita, bem dita, pelo corpo, pelas ações, pela atitude cooperativa, até pelo desmazelo autocentrado. Pura fusão do individualismo e do coletivismo.
Comportamento, enfim, como fim prático sem finalidade fora do alcance, em recomeços e finaliza-ações: armam-se, e amam-se, barracas, desmontam-nas, recolocam-nas noutros espaços. Pratos são lavados para serem sujos ou serão sujos para serem levados? Xô! Sem questões surreais na práxis anarquista. 

Surreal mesmo é o suor real dos que trabalham pela cidade sustentável, razoável, verdejante, refrescante, inclusiva, misturada. O Ocupe Estelita não é um movimento anarquista, mas contém elementos anárquicos indiscutíveis, além de participantes que se autodefinem anarquistas (embora a definição varie, voando de cabeça pra cabeça, em múltiplas conotações). Quem viu, viveu os princípios fundantes: mutualismo, trabalho voluntário, horizontalidade, autogestão, descentralização

Que aprendizados os erros ensinam? Apenas mastigando-os melhor, com atenção lúcida, saber-se-á.
Vamos cartesianizar: 1) prolongamento desgastante das discussões, assembleias que ultrapassam a marca das quatro horas de duração sem chegar sempre a decisões efetivas 2) votações únicas que acontecem em uma assembleia, cujo quorum varia enormemente, são criticadas por não representarem, supostamente, a maioria 3) ¨descontinuísmo¨: decisões referendadas nas assembleias não são levadas a cabo; às vezes sequer começam, outras não vão até o final 4) os diferentes níveis de comprometimento enfraquecem as Comissões, criadas para ORGANIZAR A PRIMEIRA OCUPAÇÃO POLÍTICA-ARTÍSTICA do Brasil

Ora, sem precisar cavar no cérébrio, é justamente o momento onde a energia coletiva (egrégora) se concentra na produção de discursos para o qual o se dirigem minhas maiores críticas.. Sãodiagnoses purulentas de organização. É mister entender o mistério, pois sujeitos autoritários_hierarquizantes_totalitários_centralizadores poderiam se apoiar na experiência dos ocupantes de Estelita (e no seu baixo grau de organização; ¨acuso, logo amo¨) para legitimar a estrutura piramidal que sustenta as complexas nações-Estado contemporâneas. É consciencioso aceitar a verdade de algumas críticas sem se bandear para o posicionamento burguês&dogmático. 
 
CHEGA DE ABSTRAÇÃO! 

Peguemos como episódio a norca, alcunha para a cola de sapateiro, talvez a droga mais usada pelos jovens das comunidades que moram nos arre!DORES do Cais José Estelita. O ritual da norca pode durar o dia todo e faz parte do imaginário: a garrafinha de plástica, que não desgruda da boca, ou do nariz, norcando a mente pelas vias respiratórias. O quadro tem molduras de preconceitos; não gera aversão imediata aos puritanos, moralistas, pudicos e parentes? Sanduíche classemedista de aversão, piedade, medo, nojinho. Este quadro vai tomando a paisagem; a problemática é expandida em discursos geradores de preconceitos ou esclarecimentos.

É apenas um módico exemplo resultando da maior mistura de classes socioeconômicas que já presenciei. Se as palavras de ordem, proclamadas com gargantas ensaguentadas, foram ¨Ocupar! Resistir!¨, as palavras que pressupõem a superação do Apocalipse (que é o estado atual do mundo) são ¨Incluir! Misturar!¨. Levem o pessoal desorganizado do underground ao mainstream, levem a galera alienada do mainstream ao underground. Sim, acredito ser necessário pensar e viver como o Inimigo, a título de experiência.É uma proposta, penso, regida pelo princípio da inevitabilidade de expansão da consciência.

Quem sabe o que pode sair daí?

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

...

e quando
um vento gostoso
afagar teu corpo
saiba que
foi um beijo
que soprei
de longe

Palavras difíceis dificultam, mas a dificuldade é sempre uma coisa má?

Proponho uma breve reflexão sobre o Logos (λόγος, palavra).   

Um dos dogmas do texto jornalístico, vim a descobrir enquanto cursava a faculdade, é o uso das palavras simples. Ergo, fáceis e de amplo uso. Não sei se foi a barriga ou o cérebro (acredito que foi a barriga, já que temos neurônios lá também) quem emitiu o primeiro sinal de incômodo. Aceitei o argumento de que o discurso jornalístico deve ser um discurso assimilável e intelígivel para todas as pessoas, pois daí se presume que o contrário é nivelar culturalmente o público-leitor por alto, em processos de exclusão linguística (quem consulta o dicionário ou pergunta à pessoa ao lado quando não entende uma palavra no jornal? pouca gente).

Mas são vários os veículos de informação e diversificados os setores da população que os leem.  O jornal, produto informativo guarda-fezes, deve ser assim, mas isso não pode ser um imperativo categórico universal. E não o é. A Piauí tem suas épocas hardcore, com uso quase abusivo de expressões francesas sem tradução, mas posso apostar que a variabilidade de palavras em suas edições é maior do que qualquer outro veículo de mídia impressa neste país. Intimamente, sempre apostei, e aposto, que isso tem efeitos benéficos. Ao aumentarmos o número de páginas de nosso dicionário mental, estamos simultaneamente aumentando nossa capacidade de pensar criticamente e formular melhor as questões que nos são postas, ou que queremos "postar" (:P). 


Problemáticas complexas não podem ter respostas simples. A Piauí pode até pecar por galicismo  - a primeira vez que li galicismo, só pensei no idioma irlândes, o gaélico, em vias de extinção, apesar do ensino bilíngue; o dicionário me corrigiu: "palavra ou expressão imitada ou tomada da língua francesa para outra língua" -, mas contribui consistentemente para uma formação intelectual e visão de mundo de quem a lê.

Recorrer a arcaísmo, por exemplo, é extremamente malvisto hoje em dia. Perdoável em textos literários (é necessário que o seja, pois na literatura a única ética é a liberdade absoluta, como o disse Eugênio Bucci), mas não em outras esferas. É precisamente esse o ponto que quero chegar. Naquela aula, ingênua ou não a minha visão, eu pensava que sim, deveríamos usar as palavras mais precisas e mais próximas àquilo a que queremos nos referir, independemente de serem fáceis ou difíceis, independentemente do veículo ou do público. A ideia é mais ou menos a de uma inserção sistemática de novas palavras que renovem as formas gastas e estereotipadas do discurso jornalístico tradicional, compreensíveis pelo contexto. Claro que isso não pode ser um projeto ou programa - na verdade, percebi depois, já ocorre espontaneamente, porque humanos são e serão eternamente criativos no uso da linguagem, apesar de superestruturas disciplinadoras-padronizadoras.

Pense no delicioso caos que seria se, de repente, os meios de comunicação de massa começassem a falar plangente em vez de "lamentoso", albalroar em vez de "esbarrar", estafeta no lugar de "mensageiro",  rotundo e não redondo, andrajoso e não esfarrapado, garatuja em vez de "rabisco malfeito", mefistofélico e não diabólico, debuxo em vez "esboço" ou "plano inicial", vetusto no lugar de "velho" ou "antigo", alvitre em vez de proposta, sugestão ou parecer, fâmulo em vez de criado ou funcionário subalterno, opúsculo em vez de "folheto", excisão em vez de "amputação", sege em vez de "carruagem", proxeneta em vez de "cafetão", desazo pra dizer "desmazelo", cúpido em vez de "desejoso" ou "ambicioso", sevícias em vez de "crueldades" ou "maus tratos", bisar no lugar de repetir", obsedar e não "importunar" ou perseguir e and so on and so forth.

 Não posso deixar de citar exemplos superclássicos: ósculos e amplexos (respectivamente, "beijos e abraços"). Claro, usar influição pode até pegar mal, "influência" já não diz tudo? Os mal-entendidos seriam fantásticos. A precariedade da ordem cotidiana mostraria-se mais visível do que nunca - a normalidade de pernas pro ar! Não poucos pensadores já imaginaram o serviço prestimoso que a TV poderia dar, se não dependessem de recursos, audiências, anúncios publicitários e pilantragem pra sobreviver.

E quanto à esfera dos bate-papos entre amigos e as conversas de botequim, de rua, de quarto, de festa? Será esnobismo chamar alguém de mandrião porque ele é preguiçoso, indolente, não trabalha nem estuda (ou vontade de xingar e deixar o outro sem saber que foi ofendido)? Quem entenderá pecúlio para se referir a dinheiro e bens hoje em dia (talvez muitos, visto que pecúnia ainda não sumiu dos textos jornalísticos, mais lidos que os literários)? 


Exemplo: aprecio a palavra inextricável, acho-a bonita, preferível a emaranhado ou enredado, e serve bem pra designar algo complexo e difícil de resolver, decifrar, deslindar. Também não é mais melodioso chamar alguém para um saturnal (bacanau, orgia)? "Ei, tá rolando saturnais lá na casa de um amigo em Candeas, vamos lá!" Discordo da teoria que defende que só os boçais ou herméticos gostam de falar palavras complicadas. [A título de curiosidade, as festas na Roma Antiga em homenagem à Saturno, deus da colheita, não eram, parece, saturnais no sentido que hoje a palavra tem (eram cerimônia religiosas, algumas com sacrifícios de animais.)]


E os falantes que gostam de ampliar seu repertório por puro prazer? Deixarão de fazê-lo porque nem sempre serão compreendidos?

A necessidade de explicar um significado pode provocar efeitos estimulantes ou brochantes, por razões/causas diferentes. Posso gostar de simplesmente enriquecer o vocabulário coletivo, ou posso sentir júbilo pela oportunidade de mostrar-me superior, "sei mais", falo em tom professoral, com sutil desdém por aquele que não sabe que locupletar é ficar rico. Posso brochar porque não gerei efeito imediato pelas minhas palavras, que nenhuma forma de magia exerceram (indicativo de bom caráter, a meu ver), ou, caso oposto, porque sou obrigado a compartilhar meu saber, saber que me diferencia das pessoas pouco cultas, assim descendo um degrau de meu pedestal. Os exageros são cada vez mais raros - duvido que você tenha ouvido alguém falar "vamos nos reunir em derredor da fogueira" (ao redor da, em torno de)? É difícil até que já tenha lido tal tópico frasal; afinal, as diferenças entre a cultura oral e escrita diminuem, resultado da democratização da leitura em nossa sociedade.

Conhecer palavras antes desconhecidas pode ser divertido quando não há esforço (ou até quando há). Pode ser uma necessidade quando se trabalha com isso, pode ser uma chateação infindável quando não nos interessa. O problema não é empregar palavras pouco conhecidas. O problema são os boçais. Os boçais só são boçais porque confundem conhecer com saber. 

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Esperando nas salas de espera


É pior do que um monstro de sete cabeças a tal da sala de espera – maldito espaço, pertencente quase que unicamente às clínicas, aos consultórios, ao (pré) atendimento médico de modo geral, onde se opera o mais silencioso dos terrorismos metafísicos. Tão odienta é a sala de espera que o conjunto de elementos que a caracterizam são incrivelmente uniformes (não, não pouparei adjetivos). Analisemo-los. Como ponto de partida, quero tratar das opções disponíveis à pobre alma esperançosa, crente de que passará pouco tempo lá.
Ora, isso precisa ser relativizado – as referências cronológicas estão em terreno movediço, o tempo do relógio entra em colapso, afunda; impera o  tempo psicológico, interior, amordaçado pelos deuses do Tédio. Quais as opções de usufruto no tempo de espera, um não tempo par excellence? As conversas na sala de espera são raras; morrem tão logo nascem, seja com alguém da poltrona ao lado, seja ao celular, com conhecidos ou desconhecidos. Salvo em casos excepcionais.  Salvo os cumprimentos, dados pessoais de praxe, os avisos breves, os prim-priimm! dos telefones tocando. Salvo aí, o silêncio costuma ser a regra.
A essa altura, enfatizo aqui que me reporto somente ao universo dos serviços privados de saúde. A minha análise não abrange as salas de espera do sistema público, por uma única razão: falta de experiência pessoal. Aposto, porém, que nestas salas deve haver mais emoção, mais imprevisibilidade, mais coragem, mais desespero, mais injustiça, mais vontade de viver.
Para facilitar o entendimento, usarei o termo “consultório” para designar o contexto mais amplo onde se situam as macambúzias salas de espera. Voltemos à questào do som e do silêncio. Onde há médicos com um pouco mais de sensibilidade uma música clássica de fundo, em altura tolerada pelos padrões da dita boa civilidade, confere um toque extra à atmosfera opressiva da sala de espera. A sala de espera é tão irritante que seu nome merece ser irritantemente repetido para fazer jus à irritação que provoca nas almas mais ativas, combatentes, inquietas. A experiência auditiva se esgota aí, visto que mesmo quando uma sala de espera está equipada com uma televisão, esta fica emudecida. Graças ao bom senso. É quase um pedido de desculpas, ou melhor, um subterfúgio para não deixar o terrorismo metafísico escancarado, o princípio da não perturbação. “Não precisam ouvir a TV, mas as imagens passarão para quem quiser assisti-las”. As opções de usufruto tornam-se A opção quando há uma TV na sala de espera, isto é, para a grande maioria.  Paroxismo do conformismo, cúmulo da passividade, auge da apatia, pináculo do puro tédio, eis o que comunicam as caras apáticas da grande maioria.
Na próxima vez que for a uma sala de espera com TV, observe a fisionomia de quem a assiste e logo entrará em instantânea depressão – os rostos denunciam a própria negação da vida, o espetáculo facial da morte viva.  A vida é sistematicamente banida das salas de espera. Quem não aguenta ter a mente programada pela programação midiática? Quem simplesmente não assiste Globo, Record, Band – e nem fala mal também, porque sabe que falar mal é dar audiência? Quais são as alternativas de fruição oferecidas? Com grande pesar, chegamos ao grande mal da sala de espera, o mais vilipendiado&o mais satirizado: as revistas velhas.
A representação icônica perfeita da sala de espera – uma revista velha, com notícias vulgares, sensacionalistas ou ultrapassadas. Leitura desatualizada em um mundo em constante atualização. De fofocas de celebridades a notícias que não fazem mais sentido hoje, é isso o que nos oferecem os consultórios médicos privados. Por que nenhum médico pensou em assinar um número mínimo de revistas, proporcional à quantidade de cadeiras e ao fluxo de pacientes-clientes? Por que é praticamente impossível chegar a uma sala de espera e encontrar a revista desta semana? Pela irrelevância da questão, talvez o fato das revistas não chegue a possuir valoração mínima para virar um produto noticioso. “Elas não fazem mal a ninguém”, alguém pode argumentar, em uma lógica tão retrógrada quanto o próprio objeto da defesa. Fazem mal sim, digo, as revistas velhas não atendem aos interesses da população – olhe os olhos daqueles que, após um suspiro de derrota, pegam uma dessas publicações e dão uma folheada. Empiricamente, não é possível notar o declínio cultural, a mediocridade de valores, o simbolismo de tudo o que é desnecessário. Empiricamente, é possível notar a leitura desinteressada, um passatempo pusilânime, um “é tudo o que me resta”.
Ora, estamos falando de um espaço frequentado por pessoas letradas, que têm uma qualidade de vida razoável, que trabalham ou que estudam. Os médicos e médicas, cientes do perfil médio de sua clientela, não se preocupam, contudo, em oferecer algo mais do que revistas velhas ou uma tv em cores no mute. Temo afirmar que é porque eles não pensam a sala de espera pelo que ela efetivamente é e representa: um teste para o purgatório. Se houver um tribunal post mortem, não há melhor treinamento na face da terra do que uma sala de espera, escoadouro de revistas obsoletas, execução privatizada do prazer de viver.

A despeito de todos os males, é preciso considerar uma lendária exceção: as salas de espera que disponibilizam interminavelmente café gratuito (abastacem após acabar). Sem querer hierarquizar, é preciso diferenciá-la: que outra oferece cafeína à vontade para estupefaciar os sentidos? De copinho em copinho, o raciocínio acelera junto com o ritmo cardíaco e uma sensaço de bem-estar se apodera artificialmente. Façamos justiça e deixemos registrado essa incomum caridade. 
A experiência em salas de espera leva, é claro, a aprendizados – leitores congênitos levam seu arsenal de livros e buscam um modo de evasão satisfatório. A retirada para um outro lugar, um hiperespaço cultural, simbólico, intelectual – apenas os mais preparados têm êxito nessa glorioso fuga, justamente eles que melhor sabem lidar com a tensão social. Vejo-me na necessidade de lembrar que esta abordagem se restringe aos que não se iluminaram. De um ponto de vista otimista, poucos lugares são tão desafiantes para a prática meditativa quanto a sala de espera – não há sequer uma contraforça para encorajar. Meditar em uma grande multidão parece ser mais fácil, a meu ver, do que em uma sala de espera. A modorrenta sala de espera é um ambiente fértil em produzir ilusões, em distorcer o senso de tempo, em desiquilibrar o arranjo hormonal do corpo. Tudo dosado de forma a penetrar sutil e inconsciemente – o mal-estar de nossa civilização é particularmente emblemático nas salas de espera.
Há outro modo de evasão, mais em voga: o ciberespaço, sonorizado pelo teclar frenético nos smartphones. Comunicação em tempo real pelas redes sociais, troca de amenidades ou resolução de besteirois julgados como importantes. O estado de consciência adquirido com esse hábito, praticado em todos os lugares e posições corporais, é um pouco mais desperto que o leve hipnotismo da TV e ligeiramente mais lúcido que a intoxicação informacional das revistas (re-vistas até quando?). O problema é que os smartphoneiros costumam ignorar o próprio vício; fuga de viciados que frequentemente recorrem ao aparelho para escapar de tensões sociais e outros incômodos naturais que surgem ao estabelecer relações humanas.
Falam – e sei que é penoso falar na terceira pessoa do plural, o modus operandi da propagação de boatos, mas é uma noção mais ou menos estabelecida – que uma virtude dos grandes fotógrafos é saber esperar. Um bom fotógrafo em uma sala de espera, eis o estoico contemporâneo! Impassível, não lê, folheia rapidamente, não vê a TV, passa a vista, não conversa, ouve quando há algo para ouvir – fareja, em suma. Não sei se a matemática alguma vez estudou isso, mas intuitivamente asseguro que a probabilide de acidentes em salas de espera é próxima de zero. Nada acontece – o farejador de imagens talvez seja aquilo que chegue mais perto da vitória, e por “vitória” refiro-me à postura de “não se deixa abater”. Aguenta firme, mas não nos enganemos: seu sofrimento é interiorizado, não transparece. Expert no vísivel, invisibiliza o próprio desespero, impossibilitado que está de sair tirando fotos das pessoas – uma subversão intolerável para os padrões de condutas urbanos.
A manifestação de vida mais comum é, como não pode deixar de ser, o choro. Sim, é por aí que a vida se imiscui, a força liberadora do choro – talvez a única linguagem possível da revolta na sala de espera. Não há inimigos – o terrorista não é um ser humano, mas um espaço. Contra o terrorismo metafísico da sala de espera, insurge o choro humano para lembrar a todos da verdade desagradável: você está onde não quer estar para ir aonde precisa ir. Infelizmente, só as crianças e adolescentes se permitem chorar e, assim, enfrentam bravamente o opressor invísivel – aos adultos, tolhidos pelo decoro social, pela  pudicícia ou pela vergonha, resta a fuga, maneira não menos honrada de confronto.
Mas porque as salas de espera gozam de um certo anonimato no tocante à responsabilização do sofrimento humano? Aí está todo o cerne do problema: a sala de espera não é vista como um grande problema.”É sua mente que produz seu sofrimento”, dirão os budistas. Tudo bem, retruco, por que não passam um retiro em uma sala de espera? (“é inviável”, dirão; “se o caminho para a iluminação tem que ser penoso e gradual, garanto que não há caminho mais penoso e mais lento”, rebato.) Espaço de morte, a vida não lhe dirige os olhos. Panteão do Tédio, a crítica é barrada na porta de entrada das salas de espera. Por que? Porque o tempo que se passa lá, incomensurável, é sempre efêmero. As idas são de periodicidade irregular e alargada.
O terrorismo metafísico da sala de espera é puramente estratégico: não deixa chegar a um nível insuportável, não desencadeia crises, não abala seriamente as estruturas psíquicas. Torna-se invísivel como o sofrimento dos fotógrafos. Passa a existir mais na noosfera do que no universo físico. Esconde-se atrás da máscara de irrelevância. Dessa forma, os mais ardentes inimigos da sala de espera sucubem ante o descrédito popular, à pilhéria dos masoquistas e tiranos. Devido às dosagens individualizantes do terror, poucos veem a nefasta influência na coletividade, o contágio emocional, a modificação no padrão de humores gerais, o abatimento energético, a morte sorrateira, a trágica racionalização (“a origem das salas de espera foi necessária e delas não se poderá escapar”).

 Invoco novamente o choro – não como revolta espontânea, talvez inconsciente, mas como tática de guerrilha surrealista. As condições mudariam se todos chorássemos enquanto esperamos na sala de espera – uma infantilização massiva. A morte dos ideais estoicos para a transformação das conjunturas: menos "overbooking/overselling", mais vagas de emprego e estágio, mais qualidade no atendimento com o menor número de pacientes por dia, mais subsídios e descontos do governo por causa da pressão popular, mais alianças de classe.. Não violência, a resistência passiva, potente porque incomodará mais do que nos incomodam. Somente o choro coletivo –  uma agressão ao senso realista de maturidade, uma desfiguração da resiliência enquanto valor a ser cultivado, afronta direta aos preconceitos machistas – é capaz de se tornar, após algumas semanas,o que uma sala de espera nunca alcançou, mas sempre almejou se tornar: insuportável.