segunda-feira, 9 de setembro de 2013
reflexões em movimento
Lance-se ao mundo. Odeie sua rotina, se frustre, tenha esperança, ame seu dia a dia, se desespere. Feche-se em seu casulo, veja o que ganha, o que perde; deixe as defesas abertas, veja o que ganha, veja o que perde. Não pré-modele seu comportamento tendo em vista a imagem que tem de si mesmo. Ouse! Seja tímido, seja extrovertido. Mude, se ponha em situações embaraçosas, retorne para a zona de conforto, fale com muita gente, socialize pra valer, isole-se, medite. Tagarele. Faça-se de mouco. Ouça. Diversifique o tipo de informação que fica alimentando seus circuitos neurais. Diversifique exercícios ou intensifique sua disciplina seja lá o que estiver praticando. Você vai morrer. É, a vida acaba e você sabe disso há muito tempo. E sabe também que não sabe nem nunca poderá saber quando a Dona Morte vai te pegar. Não se console com crenças post-mortem: o futuro é o agora assim como o passado é o agora. Não procrastine! A física quântica já disse que a estrutura subatômica que constitui o Universo é uma dança de energia e movimento. Dance! Cruze os braços! Fique sem jeito, arrebente, desanime. Lembre-se que o sucesso só existe em contraste com o fracasso, que a felicidade não seria reconhecida sem a tristeza, que o gosto da vitória só é saboreado porque você já foi derrotado pela vida alguma vez. Esqueça tudo que aprendeu. Zere. Seja indiferente. Encha-se de novo. Brigue pelo que sonha. Posicione-se! Brinque de ser mestre, de ser professor(a). Volte a ser discípulo, a ser aprendiz. Busque ser você mesmo. Incorpore uma máscara. Experimente. Pense por si mesmo.
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
dostoiévski e o leitor
“Imprevísivel” é a palavra correta para definir o chocante final do
livro O Idiota, de Fiódor Dostoiévski.
Mas, ainda assim, é um termo anódino. Quando as interpretações só fazem levantar
outras interpretações, o que me resta? Falar das minhas proprias reações
enquanto lia o final. A minha experiência de leitor retrata a minha crença na impossibilidade de qualquer preparo emocional ou voo de imaginação capazes de
predizer as últimas 30 páginas deste livro. Há spoilers a seguir – escrevi o que escrevi para
quem já leu o livro. Leia por sua própria conta e risco.
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Confesso que, afastando o
véu da minha predisposição anticlichês, eu internalizara a esperança de um
final clássico. É claro que Príncipe Michkin e Aglaia Ivanokóvna se
casariam! E esse final feliz não soaria convencional, não depois de sucessões
de eventos tão originais, tão tragicômicos.
Quanto a Rogójin e Nastácia Filippóvna, eu
queria que os dois continuassem suas peripécias infindáveis, brigas homéricas, quase-casamentos
e tudo o mais que essas trepeças explosivas tivessem direito.
Oh, pobre leitor ingênuo!
Dostoiévski pensou em leitores como você, Igor. E não quis satisfazê-los. Os
dois casais que passam a constituir o núcleo da narrativa desmoronaram de tal
forma que eu, como pessoa física que lê um livro manuseável em mãos, desmoronei junto. Não falo no sentido alegórico. A
vertigem que senti foi real e fruto da leitura; à medida que ia lendo, piorava.
Explico: ao ver que Michkin
acabou ficando com Nastácia – e que isso se deu por causa de uma hesitação, uma
hesitação vista como àquela “convicção secreta em processo de camuflagem” – meu
cérebro entrou em curto-circuito. Pane nos neurotransmissores.
Como leitor, esses momentos
finais não foram prazerosos. Não deram gostinho de deleite estético. Pelo
contrário, foi uma sessão de tortura psicológica. Não bastasse Nastácia fugir com
Rojójin uma hora antes do casamento marcado com o príncipe, não bastasse Rogójin
matá-la quando chegaram a Petersburgo, ainda temos que imaginar o príncipe
vendo o cadáver da mulher por quem tanto sofreu de compaixão e dormir com o
assassino, afagando seus cabelos e acariciando-lhe o rosto!
Levantei todas as hipóteses
da Psicanálise. Em vão.
Passou ainda pela minha
cabeça a ideia de que Dostoievski estava fazendo uma grande piada sem graça: o príncipe
era gay e tinha um caso com Rogójin só revelado ao fim do livro. Era o que me
faltava. Mas não; ao invés disso, temos diagnósticos formais de loucura,
atribuições causais ortodoxas ao comportamento surreal de Míchkin e Rogójin.
Que exercício mental Dostoievski consegue impelir a quem o lê. Em meio à magia da narrativa, quem parecia estar com inflamação cerebral era eu, que lia todas essas páginas finais em pé. Meu corpo se arrastava debilmente de um lado para o outro. Rebobina isso tudo! Clamava a voz na minha cabeça, sabendo que textos são irrebobináveis. O conteúdo semântico vai direto para a mente e pronto. Apertar o botão PAUSE e largar o livro? Jamais.
Que exercício mental Dostoievski consegue impelir a quem o lê. Em meio à magia da narrativa, quem parecia estar com inflamação cerebral era eu, que lia todas essas páginas finais em pé. Meu corpo se arrastava debilmente de um lado para o outro. Rebobina isso tudo! Clamava a voz na minha cabeça, sabendo que textos são irrebobináveis. O conteúdo semântico vai direto para a mente e pronto. Apertar o botão PAUSE e largar o livro? Jamais.
Enquanto descubro que
Rogójin está pagando trabalhos forçados em algum canto muito frio daquela parte
do mundo próxima à Rússia, minhas pernas parecem fraquejar. Eu não entendia. Por
que parece que posso desmaiar a qualquer momento? No sanatório, Liev Nikolaiévtch
ficou louco a ponto de não reconhecer Lisavieta Prokófvena. Céus! Leve taquicardia.
O que é Aglaia fugindo com um conde em comparação a isso tudo? Um fato
irrisório, excessivamente plausível.
Já tinha me sentido mais
forte lendo, mas era a primeira vez que o inverso acontecia. Aqui vem a parte
engraçada: o que eu sentia correspondia justamente às sensações psicossomáticas
descritas pelo Príncipe Míchkin em certas passagens ao longo do livro. Os
rompantes da sua fragilidade psicológica, que eu por vezes desprezei, se
assomava agora em mim – 144 anos depois do livro ter sido publicado pela
primeira vez.
De pé. Em estado de torpor.
Porque minha boca não
fechava,
o meu pensamento não se
orientava?
Arrebatado.
Estava completamente
arrebatado.
Sentei-me no sofá e
suspirei.
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