terça-feira, 19 de agosto de 2014

Esperando nas salas de espera


É pior do que um monstro de sete cabeças a tal da sala de espera – maldito espaço, pertencente quase que unicamente às clínicas, aos consultórios, ao (pré) atendimento médico de modo geral, onde se opera o mais silencioso dos terrorismos metafísicos. Tão odienta é a sala de espera que o conjunto de elementos que a caracterizam são incrivelmente uniformes (não, não pouparei adjetivos). Analisemo-los. Como ponto de partida, quero tratar das opções disponíveis à pobre alma esperançosa, crente de que passará pouco tempo lá.
Ora, isso precisa ser relativizado – as referências cronológicas estão em terreno movediço, o tempo do relógio entra em colapso, afunda; impera o  tempo psicológico, interior, amordaçado pelos deuses do Tédio. Quais as opções de usufruto no tempo de espera, um não tempo par excellence? As conversas na sala de espera são raras; morrem tão logo nascem, seja com alguém da poltrona ao lado, seja ao celular, com conhecidos ou desconhecidos. Salvo em casos excepcionais.  Salvo os cumprimentos, dados pessoais de praxe, os avisos breves, os prim-priimm! dos telefones tocando. Salvo aí, o silêncio costuma ser a regra.
A essa altura, enfatizo aqui que me reporto somente ao universo dos serviços privados de saúde. A minha análise não abrange as salas de espera do sistema público, por uma única razão: falta de experiência pessoal. Aposto, porém, que nestas salas deve haver mais emoção, mais imprevisibilidade, mais coragem, mais desespero, mais injustiça, mais vontade de viver.
Para facilitar o entendimento, usarei o termo “consultório” para designar o contexto mais amplo onde se situam as macambúzias salas de espera. Voltemos à questào do som e do silêncio. Onde há médicos com um pouco mais de sensibilidade uma música clássica de fundo, em altura tolerada pelos padrões da dita boa civilidade, confere um toque extra à atmosfera opressiva da sala de espera. A sala de espera é tão irritante que seu nome merece ser irritantemente repetido para fazer jus à irritação que provoca nas almas mais ativas, combatentes, inquietas. A experiência auditiva se esgota aí, visto que mesmo quando uma sala de espera está equipada com uma televisão, esta fica emudecida. Graças ao bom senso. É quase um pedido de desculpas, ou melhor, um subterfúgio para não deixar o terrorismo metafísico escancarado, o princípio da não perturbação. “Não precisam ouvir a TV, mas as imagens passarão para quem quiser assisti-las”. As opções de usufruto tornam-se A opção quando há uma TV na sala de espera, isto é, para a grande maioria.  Paroxismo do conformismo, cúmulo da passividade, auge da apatia, pináculo do puro tédio, eis o que comunicam as caras apáticas da grande maioria.
Na próxima vez que for a uma sala de espera com TV, observe a fisionomia de quem a assiste e logo entrará em instantânea depressão – os rostos denunciam a própria negação da vida, o espetáculo facial da morte viva.  A vida é sistematicamente banida das salas de espera. Quem não aguenta ter a mente programada pela programação midiática? Quem simplesmente não assiste Globo, Record, Band – e nem fala mal também, porque sabe que falar mal é dar audiência? Quais são as alternativas de fruição oferecidas? Com grande pesar, chegamos ao grande mal da sala de espera, o mais vilipendiado&o mais satirizado: as revistas velhas.
A representação icônica perfeita da sala de espera – uma revista velha, com notícias vulgares, sensacionalistas ou ultrapassadas. Leitura desatualizada em um mundo em constante atualização. De fofocas de celebridades a notícias que não fazem mais sentido hoje, é isso o que nos oferecem os consultórios médicos privados. Por que nenhum médico pensou em assinar um número mínimo de revistas, proporcional à quantidade de cadeiras e ao fluxo de pacientes-clientes? Por que é praticamente impossível chegar a uma sala de espera e encontrar a revista desta semana? Pela irrelevância da questão, talvez o fato das revistas não chegue a possuir valoração mínima para virar um produto noticioso. “Elas não fazem mal a ninguém”, alguém pode argumentar, em uma lógica tão retrógrada quanto o próprio objeto da defesa. Fazem mal sim, digo, as revistas velhas não atendem aos interesses da população – olhe os olhos daqueles que, após um suspiro de derrota, pegam uma dessas publicações e dão uma folheada. Empiricamente, não é possível notar o declínio cultural, a mediocridade de valores, o simbolismo de tudo o que é desnecessário. Empiricamente, é possível notar a leitura desinteressada, um passatempo pusilânime, um “é tudo o que me resta”.
Ora, estamos falando de um espaço frequentado por pessoas letradas, que têm uma qualidade de vida razoável, que trabalham ou que estudam. Os médicos e médicas, cientes do perfil médio de sua clientela, não se preocupam, contudo, em oferecer algo mais do que revistas velhas ou uma tv em cores no mute. Temo afirmar que é porque eles não pensam a sala de espera pelo que ela efetivamente é e representa: um teste para o purgatório. Se houver um tribunal post mortem, não há melhor treinamento na face da terra do que uma sala de espera, escoadouro de revistas obsoletas, execução privatizada do prazer de viver.

A despeito de todos os males, é preciso considerar uma lendária exceção: as salas de espera que disponibilizam interminavelmente café gratuito (abastacem após acabar). Sem querer hierarquizar, é preciso diferenciá-la: que outra oferece cafeína à vontade para estupefaciar os sentidos? De copinho em copinho, o raciocínio acelera junto com o ritmo cardíaco e uma sensaço de bem-estar se apodera artificialmente. Façamos justiça e deixemos registrado essa incomum caridade. 
A experiência em salas de espera leva, é claro, a aprendizados – leitores congênitos levam seu arsenal de livros e buscam um modo de evasão satisfatório. A retirada para um outro lugar, um hiperespaço cultural, simbólico, intelectual – apenas os mais preparados têm êxito nessa glorioso fuga, justamente eles que melhor sabem lidar com a tensão social. Vejo-me na necessidade de lembrar que esta abordagem se restringe aos que não se iluminaram. De um ponto de vista otimista, poucos lugares são tão desafiantes para a prática meditativa quanto a sala de espera – não há sequer uma contraforça para encorajar. Meditar em uma grande multidão parece ser mais fácil, a meu ver, do que em uma sala de espera. A modorrenta sala de espera é um ambiente fértil em produzir ilusões, em distorcer o senso de tempo, em desiquilibrar o arranjo hormonal do corpo. Tudo dosado de forma a penetrar sutil e inconsciemente – o mal-estar de nossa civilização é particularmente emblemático nas salas de espera.
Há outro modo de evasão, mais em voga: o ciberespaço, sonorizado pelo teclar frenético nos smartphones. Comunicação em tempo real pelas redes sociais, troca de amenidades ou resolução de besteirois julgados como importantes. O estado de consciência adquirido com esse hábito, praticado em todos os lugares e posições corporais, é um pouco mais desperto que o leve hipnotismo da TV e ligeiramente mais lúcido que a intoxicação informacional das revistas (re-vistas até quando?). O problema é que os smartphoneiros costumam ignorar o próprio vício; fuga de viciados que frequentemente recorrem ao aparelho para escapar de tensões sociais e outros incômodos naturais que surgem ao estabelecer relações humanas.
Falam – e sei que é penoso falar na terceira pessoa do plural, o modus operandi da propagação de boatos, mas é uma noção mais ou menos estabelecida – que uma virtude dos grandes fotógrafos é saber esperar. Um bom fotógrafo em uma sala de espera, eis o estoico contemporâneo! Impassível, não lê, folheia rapidamente, não vê a TV, passa a vista, não conversa, ouve quando há algo para ouvir – fareja, em suma. Não sei se a matemática alguma vez estudou isso, mas intuitivamente asseguro que a probabilide de acidentes em salas de espera é próxima de zero. Nada acontece – o farejador de imagens talvez seja aquilo que chegue mais perto da vitória, e por “vitória” refiro-me à postura de “não se deixa abater”. Aguenta firme, mas não nos enganemos: seu sofrimento é interiorizado, não transparece. Expert no vísivel, invisibiliza o próprio desespero, impossibilitado que está de sair tirando fotos das pessoas – uma subversão intolerável para os padrões de condutas urbanos.
A manifestação de vida mais comum é, como não pode deixar de ser, o choro. Sim, é por aí que a vida se imiscui, a força liberadora do choro – talvez a única linguagem possível da revolta na sala de espera. Não há inimigos – o terrorista não é um ser humano, mas um espaço. Contra o terrorismo metafísico da sala de espera, insurge o choro humano para lembrar a todos da verdade desagradável: você está onde não quer estar para ir aonde precisa ir. Infelizmente, só as crianças e adolescentes se permitem chorar e, assim, enfrentam bravamente o opressor invísivel – aos adultos, tolhidos pelo decoro social, pela  pudicícia ou pela vergonha, resta a fuga, maneira não menos honrada de confronto.
Mas porque as salas de espera gozam de um certo anonimato no tocante à responsabilização do sofrimento humano? Aí está todo o cerne do problema: a sala de espera não é vista como um grande problema.”É sua mente que produz seu sofrimento”, dirão os budistas. Tudo bem, retruco, por que não passam um retiro em uma sala de espera? (“é inviável”, dirão; “se o caminho para a iluminação tem que ser penoso e gradual, garanto que não há caminho mais penoso e mais lento”, rebato.) Espaço de morte, a vida não lhe dirige os olhos. Panteão do Tédio, a crítica é barrada na porta de entrada das salas de espera. Por que? Porque o tempo que se passa lá, incomensurável, é sempre efêmero. As idas são de periodicidade irregular e alargada.
O terrorismo metafísico da sala de espera é puramente estratégico: não deixa chegar a um nível insuportável, não desencadeia crises, não abala seriamente as estruturas psíquicas. Torna-se invísivel como o sofrimento dos fotógrafos. Passa a existir mais na noosfera do que no universo físico. Esconde-se atrás da máscara de irrelevância. Dessa forma, os mais ardentes inimigos da sala de espera sucubem ante o descrédito popular, à pilhéria dos masoquistas e tiranos. Devido às dosagens individualizantes do terror, poucos veem a nefasta influência na coletividade, o contágio emocional, a modificação no padrão de humores gerais, o abatimento energético, a morte sorrateira, a trágica racionalização (“a origem das salas de espera foi necessária e delas não se poderá escapar”).

 Invoco novamente o choro – não como revolta espontânea, talvez inconsciente, mas como tática de guerrilha surrealista. As condições mudariam se todos chorássemos enquanto esperamos na sala de espera – uma infantilização massiva. A morte dos ideais estoicos para a transformação das conjunturas: menos "overbooking/overselling", mais vagas de emprego e estágio, mais qualidade no atendimento com o menor número de pacientes por dia, mais subsídios e descontos do governo por causa da pressão popular, mais alianças de classe.. Não violência, a resistência passiva, potente porque incomodará mais do que nos incomodam. Somente o choro coletivo –  uma agressão ao senso realista de maturidade, uma desfiguração da resiliência enquanto valor a ser cultivado, afronta direta aos preconceitos machistas – é capaz de se tornar, após algumas semanas,o que uma sala de espera nunca alcançou, mas sempre almejou se tornar: insuportável.