domingo, 27 de abril de 2014

"E se o ânus estivesse no suvaco?"

Há um quê de reducionismo imperdoável nas análises que resumem Ela, último longa-metragem do criativo cineasta Spike Jonze, a uma história de amor improvável entre um homem e uma máquina.  Esse filme me fisgou e, como não tenho a mínima obrigação parecer imparcial, não sou apenas suspeito para falar, mas réu condenado.


Na plateia do cinema São Luiz, no Recife, as reações mais sonoras aconteciam nos momentos de estranhamento de outras pessoas no filme quando Theodore Twombly (Joachim Fenix) - o escritor que trabalha em uma empresa que terceiriza cartas de entes queridos – assumia sua paixão por Samantha (Scarlett Johansson, que não aparece, mas deixa sua marca encantadora e indelevelmente sexy).  Aliás, o próprio ganha-pão de Theodore é uma ironia sobre a deterioração de nossas habilidades afetivas em um capitalismo futurista: até as cartas para as pessoas que amamos são escritas por desconhecidos.  
     Voltando ao estranhamento. Que situações eram estas e quem é Samantha? Sobretudo, a de surpresa das pessoas ao saberem quem era a “nova namorada” de Theodore. Samantha é um sistema operacional inteligente e intuitivo.  Que sente – e passa da agonia de não saber o que é ter um corpo à alegria de não se ver limitada por coordenadas espaço-temporais e pela mortalidade. Os diálogos entre os dois são sempre imprevísiveis e criativos. O desenrolar das cenas é estupendo, o meu queixo descia cada vez mais.
Uma reflexão que o filme dispara é o deslocamento de percepção. Vemos o “futuro” do “falar ao celular”nas ruas, todas as expressionices que fazemos quase inconscientemente. E os jogos de câmera, que mostram certas pecularidades de nossa animalidade (esquecemos que somos mamíferos-vertebrados-primatas-hominídeos).  Citação in memoriam: “E se o ânus estivesse no suvaco?”.

terça-feira, 22 de abril de 2014

A ida noturna ao cemitério de Camaragibe

Este texto foi postado em um grupo terapêutico no Facebook. E está sendo postado na íntegra no Raios Sinápticos, a fim de que se possa preservar mais seu espírito. Apenas erros gramaticais e sintáticos de desatenção foram retificados.

                Olá a todos!  Após conversar com Zaki e Aurélio sobre um exercício espiritual que fiz na terça-feira (17/12/2013), ouvi dos dois que seria interessante postar aqui uma espécie de relato dessa vivência. Que consistiu basicamente em ficar algumas horas (ilegais?)  no Cemitério de Camaragibe. Aviso que não será uma leitura curta, mas, aos interessados que se identificarem com alguns aspectos do que falarei, ou que tenham algo a contribuir/esclarecer/adicionar às minhas descrições e minhas (in)compreensões, sou-lhes grato de antemão!
                Bem, comecemos pelo começo. Bagwan Shree Rajneesh foi o ponto de partida. Em  um dos seus livros, ele fala de um rito iniciático tântrico realizado há milênios, uma oportunidade de abrir a consciência para um entendimento mais elevado da morte: passar uma noite em claro em um cemitério. Alguns dias depois, lá estava eu, pegando o ônibus Chã de Cruz, levando comigo apenas a roupa do corpo,  a carteira de habilitação (CNH) e o VEM. Desço do ônibus, por volta das 22h45, e caminho uns 200 metros até o cemitério. O portão está trancado, evidente, mas ouço televozes em uma “sala” perto da entrada, já no interior do cemitério, a dois metros do portão. “Segurança vendo a TV”, penso. “Não esperava isso. Mas agora vamos improvisar. Quem sabe ele/ela deixa eu entrar se eu explicar direitinho, com cara de coroinha da igreja, o que quero fazer?” Claro, havia o risco de que me considerassem um necrófilo.

                - Boa noite! Alô! Boa noite!
                Bato palmas, nada. Nem sinal de qualquer agitação. Pressinto que eles deixam o aparelho ligado só para alguém pensar do lado de fora que tem segurança 24 horas. O muro é feito na medida para ser pulado: baixo, não tem cerca elétrica nem cacos de vidro.
                Pulo e pouso no chão, com um baque audível no silêncio da noite nublada, atento à qualquer ruído vindo da minha esquerda. Nada. Vou na direção oposta à guarita. Adrenalina nas veias, sensação de alerta. Sinto-me bem, muito vivo. O imaginário popular costuma visualizar um cemitério como um grande aglomerado de mortos a sete palmos debaixo da terra e muitas cruzes ou lápides & epitáfios. Vemos isso o tempo todo nas cenas de enterro dos filmes. Ali, acredito que a maior parte dos mortos estão acima da terra, em jazigos e câmaras não padronizadas. Pelo contrário, quase superpersonalizadas, com materiais que iam do mármore escuro até tijolo + cimento + tinta branca. Os caminhos entre os jazigos são pavimentados. No geral, apesar da maior parte dos postes de luz não estarem acesos,  o cemitério não estava mergulhado na escuridão.
                A maioria dos epitáfios falava das saudades dos irmãos, primos(as), tios(as), mães, pais, avôs, avós etc. Uma estrela ao lado do dia em que nasceu, uma cruz ao lado do dia que morreu. Minifotografias em forma ovoide em um ou outro jazigo. Caminho devagar, sem pressa nenhuma. Sei que tenho todo o tempo do mundo (=até o amanhecer) para ver cada m² do cemitério.
                Procuro manter um estado de consciência receptivo, aberto, até vazio no limite do possível; evito conjecturar opiniões/previsões sobre o lugar e o futuro; busco sincronizar meu campo energético pessoal com  o campo energético sutil da área. Ouço os sons que vêm dos arrabaldes: o bradar de algum grupelho de bêbados, gritinhos pneumáticos dos automotores, sirenes esporádicas de carros da polícia, vozes de pedestres, o farfalhar de algumas árvores. A lua estava cheia no dia anterior, mas não a vejo hoje por causa das nuvens. No tempo que fiquei lá, só choviscou um pouco.   
                Não foram os ex-vivos e sim seres vivos que produziram, no início, as sensações mais fortes. Em alguns trechos, dezenas de baratas surgiam aparentemente do nada e iam para lá e pra cá perto dos meus pés. Assassinei algumas que se meteram a valentonas, sem peso na consciência. E com muito asco. A certa altura, subi em um jazigo, superfície limpa, sentei em uma postura relativamente meditativa, com a coluna reta e o pescoço alinhado (pernas soltas) e busquei apenas sentir.
                Imagens de um passado distante vieram à  minha cabeça. Nada relevante, vinham como flashes. Curioso notar, porém, que foram coisas que eu não lembrava há muito tempo. Banalidades das quais nem lembro mais até. Até anotaria em algum lugar se tivesse levado papel. Mas não levei, e nem relógio de pulso, pois não queria ter a noção de tempo regulada ali por uma máquina. Tchau Chronos. Olá Kairós.
                Os minutos transcorriam. Sentia-me ainda vivo, estranhamente seguro para quem pensava que ia se “aventurar perigosamente”.  Ora fazia alguns exercícios de respiração, ora de visualização criativa . Saltava de jazigo em jazigo. Sentava em outros lugares. Percorri toda a extensão do cemitério. Aquecimento corporal aqui, outro acolá. Sim, havia um morcego, ou dois, que inventavam de voar muito perto de mim, às vezes circulando um Igor um tanto quanto apavorado que tentava afugentá-los com a força da mente e dos braços.
Bem, do ponto de vista objetivo, foram essas minhas ações. Do ponto de vista subjetivo, e minha descrição a partir de agora deixa de lado a linearidade cronológica. Experimentei um súbito arrependimento por ter desperdiçado vários minutos do meu dia com coisas desnecessárias, irrelevantes. Pensei em como as pessoas agiriam diferente se tivessem uma consciência mais aguda da finitude da vida. Como alguém que já morreu simbolicamente várias vezes desde que nasci, a morte sempre foi algo que me fascinou, até pela sua força intensificadora , em vários aspectos, de promover A VIDA.
                Noutros momentos também senti uma raiva incontida de todos aqueles ex-vivos “que me acompanhavam”. A raiva veio; as causas que depois atribuí são explicações/interpretações a posteriori. Algumas: a importância desmesurada que estava sendo dada a eles, a pressuposição injusta de que muitos ali não souberam valorizar a vida que tinham, a incomunicabilidade deles! Nonsense, claro. Não sou adepto da Teoria da Reencarnação e nem da Doutrina Espírita. E também nunca demonstrei capacidades mediúnicas até agora, embora já tenha tido algumas alucinações visuais/auditivas com entes humanos por três ou quatro vezes.
                Curioso: a raiva começou comigo, de mim, depois para a humanidade em geral e depois para a “ex-humanidade”. Que seja. Procuro não ver a morte com resignação, como um fenômeno inseparável da própria vida. A energia do cemitério era inesperadamente positiva, good vibes in general. Entoeei alguns mantras, mas não fiz nenhum pedido ao local. Senti-me o tempo todo estranhamente “protegido”.
Ao passar por um certo túmulo, gradeado por uma cerca de ferro, pensei à toa: “Essa mulher viveu a vida toda em uma prisão mental e depois de morta ainda é obrigada a ter o corpo rodeado por grades.” Fui levado (eu, que não acredito em espíritos) a mentalizar positivo para ela: “Liberte-se dessas amarras, voe, se liberte! PERCEBA as grades que você constrói ao redor de si mesma, é você quem se limita! E paz, tenha muita paz!” Depois, sem o menor direito de fazê-lo, recriminei a família dela. Estranhos impulsos e achismos. Interpretações arrogantes?

Texto abstruso, mal-escrito e com uma mensagem malpassada


                Enquanto penso em escrever esta frase: “não vemos com os nossos próprios olhos”, penso no quão pretensiosas são as sentenças formuladas na primeira pessoa do plural.  Passei muito tempo vendo com outros olhos, olhos outros, dos outros. Construí várias hipóteses para esse olhar emprestado/ olhar que não olha, olhar imaculado, espúrio. Psiquicamente em frangalhos. Olhar estandardizado, pré-fabricado pela consciência coletivas ou por forças inconscientes (im)pessoais.
                Não estou tendo nenhum insight ou exsight. Talvez esteja abrindo minha trilha textual, a trancos e barrancos, para falar de minha descoberta do olhar fenomenológico e ainda introduzir críticas aos facebookianos. Mas permitam-me ser mais evasivo. Falo de achar, por exemplo,
o abridor de garrafa de vinho na gaveta repleta de metais, facas, garfos, talheres, enfim,  tudo que faz tim-tim quando a gente bate um no outro, nos outros, dos outros. Quando precisamos localizar algo na tão chamada realidade objetiva surge a necessidade de olhar com nossos olhos. O objetivismo se impõe ao nosso subjetivismo, como um avalanche aos alpinistas.
                Exemplo pra lá de prosaico (mas, ei, é melhor do que a agulha no palheiro). Posso ir mais além, e particularmente, ir logo à questão que me interessa diretamente: o problema da valoração. Isso mesmo. E não, não estou desviando do tema. Alguém que lê uma obra e não sabe dizer se ela tem qualidade ou não, não sabe como hierarquizar as próprias preferências consoante as próprias sensações corpóreas/crivo intelectual. Este alguém. Essa entidade que conjuro agora em palavra e você pensa em todos os conhecidos do seu mund(o)(inho)(ão), menos em você mesmo. Este alguém precisa ler críticas, precisa sentir a aprovação do grupo, precisa da anuência da autoridade mais próxima etc. Típico caso do instinto de rebanho nietzscheano.
                Peguemos mais um exemplo ordinário. Veem-se as relações entre postadores, posts e leitores nas redes sociais. Quem curte depois que vê o “número de curtidas”, quem constrói a “própria” opinião depois que ela já foi referendada pela maioria, etcetera e etcetera e cacetera! Ovelhasnautas conformadas? Com preguiça de pensar? Indisposição? Medo de ir contra a corrente? Hábito inconsciente, não examinado? Pode-se tirar conclusões a respeito disso?
Eu não tiro. Evito tirar conclusões. Prefiro a interrogação ao ponto final

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Desparafusando a cabeça com imagens

Após quatro meses cerebralizando para o concurso público da Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), na disputa pelo cargo de Analista Legislativo para Jornalistas, área de Mídia Impressa, decidi descansar a cabeça com o vazio blockbusteado de Hollywood. Pré-julgamento generalista, pois nem tudo que sai do forno desse distrito de Los Angeles, Califórnia, é imprestável. Assisti aos dois Capitão América, mas não é deles que quero falar (ok, curta observação: apesar do roteiro mediano, o timing das piadas foi perfeito e arranca verdadeiras risadas a quem cultiva a mente aberta apesar de preferir filmes para pensar&refletir) e sim de Elysium.
Outro filme de ação – ressalto, novamente, que é um gênero que não me excita –, da estirpe ficção científica futurista. Uma distopia na qual a divisão de classes volta a se simplificar (à época de Marx? não exatamente) entre superricos e o resto da população, com uma diferença: os superricos vivem em uma paraíso no espaço estelar, uma satélite onde a medicina atingiu seu pico máximo (sim, qualquer doença ou problema de saúde pode ser curado em questão de segundos) e as pessoas vivem mais de 200 anos. Dos elysianos em geral pouco sabemos, posto que a maior parte da ação acontece mesmo no pobretão planeta Terra, onde as condições de exploração desumana do proletariado&desempregariado mundial voltam a ser o modelo "de gestão" dominante – repetindo, dos habitantes de Elysium só vemos em ação os altos escalões do Governo e da Secretaria da Defesa. Todos os robôs na Terra estão a serviço de Elysium.
Não me sinto à vontade para descrever cronologicamente o suceder das ações, tiros, explosões, costuras, sangue&suor.  Estamos, em tempo geológico, no éon Fanerozoico, era Cenozoica - Quartenária, período Neogeno, época Holoceno. Ou seja, resumos/resenhas/sinopse/críticas de 99% da produção cinematográfica estadunidense são produzidas ad nauseam na internet. Se me importo em ser mais um? De maneira alguma. Vamos seguir um pouco o script...
No elenco, quatro atores fulguram: Matt Damon (o herói que passa pelas situações adversas, luta com os homens maus e ______ no final), Jodie Foster (a vilã que incorpora a Paranoica da Segurança Estatal que Despreza os Direitos Humanos e planeja dar um Golpe de Estado por discordar da política humanista do presidente de Elysium), Alice Braga (a médica que é a amada do Herói desde a infância e luta para salvar a vida da filha, que sofre de leucemia, e cuja única salvação é chegar a Elysium) e Wagner Moura (o ajudante do Herói, em atuação excelente, que possui o aparato técnico e tecnológico para chegar a Elysium; sim, é ele quem transporta desesperados, mediante preços extorsivos, em naves para o satélite paradísiaco – sem muito sucesso).

A trilha sonora do filme consiste basicamente de música eletrônica apta a modulações da frequência cerebral, injetando maior densidade e drama às cenas. Não estou aqui para dizer se o filme é bom ou ruim (no longo espectro dessa polaridade, aproximo-o mais do “bom”), mas para expor certos detalhes futurísticos apresentados. Certamente que houve pesquisa da produção do filme acerca do futuro, alguma sorte de prognósticos especulativos. Isso me interessou.
Lembremos que o filme se passa na metade do século XXII. Alguns pontos que merecem ser anotados: robôs que falam a língua humana e obedecem as ordens às quais foram programados para obedecer(ideia de subserviência robótica); implantes mecânicos no corpo humano aptos a lhe dar superforça e superagilidade; chips neurológicos que armazenam grandes quantidades de informações (a unidade falada no filme é o exabyte: 1exabyte equivale a mais de um 1 bilhão de gigabytes) no cérebro; os robôs podem fazer leituras, em um piscar de olhos, do histórico biológico e social de cada cidadão, além de informar probabilísticamente tendências a ser tomadas e situação atual (batidas cardíacas, que hormônios estão sendo excretados etc); informações identitárias são gravadas no DNA, entre outras coisas, como escudos de energia à prova de balas - balas que são mais rajadas de energia. Energia de quê? Faço ideia não.

Em termos tecnológicos, a aposta do filme ficou mesmo na área de saúde e militar. Em termos visionários, toda a predição distópica se fundamenta no paradigma materialista, como exemplificam as fugazes cenas do cotidiano dos elysianos. Em termos de pancadaria, o suspense criado...oh, isso já é dizer muito: suspense é criado. Mantido? Aí já depende do telespectador. Em termos de atuação, os elogios cabem aos protagonistas; e só. (Ainda fico enervado com certas reações comportamentais pouco verossímeis, como o presidente que quer falar com Jodie Foster, chama-a e ouve toda sorte de impropérios como se fosse um GRANDE OUVIDO IMPOTENTE e não rebate nem pensa em rebater nem faz qualquer expressão de indignação ou discordância nem insinua qualquer resposta.) Em termos de roteiro, penso que o adjetivo “hollywodiano” diz tudo a quem sabe ler nas entrelinhas. 
Concluindo, tentei fazer uma resenha informal do filme e, ao mesmo tempo, apontar traços da minha subjetividade para que o(a) leitor(a) possa ver com mais clareza se esse é um tipo de filme que ele(a) locaria ou não.
Porque eu decidi falar desse filme e não do sensacional Cine Holliúdy?
Velha mania de querer ser imprevísivel para mim mesmo.