Este texto foi postado em um grupo terapêutico no
Facebook. E está sendo postado na íntegra no Raios Sinápticos, a fim de que se
possa preservar mais seu espírito. Apenas erros gramaticais e sintáticos de
desatenção foram retificados.
Olá a todos! Após conversar com Zaki e Aurélio sobre um
exercício espiritual que fiz na terça-feira (17/12/2013), ouvi dos dois que
seria interessante postar aqui uma espécie de relato dessa vivência. Que
consistiu basicamente em ficar algumas horas (ilegais?) no Cemitério de Camaragibe. Aviso que não será
uma leitura curta, mas, aos interessados que se identificarem com alguns
aspectos do que falarei, ou que tenham algo a contribuir/esclarecer/adicionar
às minhas descrições e minhas (in)compreensões, sou-lhes grato de antemão!
Bem, comecemos pelo começo. Bagwan
Shree Rajneesh foi o ponto de partida. Em
um dos seus livros, ele fala de um rito iniciático tântrico realizado há
milênios, uma oportunidade de abrir a consciência para um entendimento mais
elevado da morte: passar uma noite em claro em um cemitério. Alguns dias
depois, lá estava eu, pegando o ônibus Chã de Cruz, levando comigo apenas a
roupa do corpo, a carteira de
habilitação (CNH) e o VEM. Desço do ônibus, por volta das 22h45, e caminho uns
200 metros até o cemitério. O portão está trancado, evidente, mas ouço televozes
em uma “sala” perto da entrada, já no interior do cemitério, a dois metros do
portão. “Segurança vendo a TV”, penso. “Não esperava isso. Mas agora vamos
improvisar. Quem sabe ele/ela deixa eu entrar se eu explicar direitinho, com
cara de coroinha da igreja, o que quero fazer?” Claro, havia o risco de que me
considerassem um necrófilo.
- Boa noite! Alô! Boa noite!
Bato palmas, nada. Nem sinal de qualquer
agitação. Pressinto que eles deixam o aparelho ligado só para alguém pensar do
lado de fora que tem segurança 24 horas. O muro é feito na medida para ser
pulado: baixo, não tem cerca elétrica nem cacos de vidro.
Pulo e pouso no chão, com um
baque audível no silêncio da noite nublada, atento à qualquer ruído vindo da
minha esquerda. Nada. Vou na direção oposta à guarita. Adrenalina nas veias,
sensação de alerta. Sinto-me bem, muito vivo. O imaginário popular costuma
visualizar um cemitério como um grande aglomerado de mortos a sete palmos
debaixo da terra e muitas cruzes ou lápides & epitáfios. Vemos isso o tempo
todo nas cenas de enterro dos filmes. Ali, acredito que a maior parte dos
mortos estão acima da terra, em jazigos e câmaras não padronizadas. Pelo contrário,
quase superpersonalizadas, com materiais que iam do mármore escuro até tijolo +
cimento + tinta branca. Os caminhos entre os jazigos são pavimentados. No
geral, apesar da maior parte dos postes de luz não estarem acesos, o cemitério não estava mergulhado na
escuridão.
A maioria dos epitáfios falava
das saudades dos irmãos, primos(as), tios(as), mães, pais, avôs, avós etc. Uma
estrela ao lado do dia em que nasceu, uma cruz ao lado do dia que morreu.
Minifotografias em forma ovoide em um ou outro jazigo. Caminho devagar, sem
pressa nenhuma. Sei que tenho todo o tempo do mundo (=até o amanhecer) para ver
cada m² do cemitério.
Procuro manter um estado de
consciência receptivo, aberto, até vazio no limite do possível; evito conjecturar
opiniões/previsões sobre o lugar e o futuro; busco sincronizar meu campo
energético pessoal com o campo
energético sutil da área. Ouço os sons que vêm dos arrabaldes: o bradar de
algum grupelho de bêbados, gritinhos pneumáticos dos automotores, sirenes
esporádicas de carros da polícia, vozes de pedestres, o farfalhar de algumas
árvores. A lua estava cheia no dia anterior, mas não a vejo hoje por causa das
nuvens. No tempo que fiquei lá, só choviscou um pouco.
Não foram os ex-vivos e sim seres
vivos que produziram, no início, as sensações mais fortes. Em alguns trechos,
dezenas de baratas surgiam aparentemente do nada e iam para lá e pra cá perto
dos meus pés. Assassinei algumas que se meteram a valentonas, sem peso na
consciência. E com muito asco. A certa altura, subi em um jazigo, superfície
limpa, sentei em uma postura relativamente meditativa, com a coluna reta e o
pescoço alinhado (pernas soltas) e busquei apenas sentir.
Imagens de um passado distante
vieram à minha cabeça. Nada relevante,
vinham como flashes. Curioso notar,
porém, que foram coisas que eu não lembrava há muito tempo. Banalidades das
quais nem lembro mais até. Até anotaria em algum lugar se tivesse levado papel.
Mas não levei, e nem relógio de pulso, pois não queria ter a noção de tempo
regulada ali por uma máquina. Tchau Chronos. Olá Kairós.
Os minutos transcorriam.
Sentia-me ainda vivo, estranhamente seguro para quem pensava que ia se
“aventurar perigosamente”. Ora fazia
alguns exercícios de respiração, ora de visualização criativa . Saltava de
jazigo em jazigo. Sentava em outros lugares. Percorri toda a extensão do
cemitério. Aquecimento corporal aqui, outro acolá. Sim, havia um morcego, ou
dois, que inventavam de voar muito perto de mim, às vezes circulando um Igor um
tanto quanto apavorado que tentava afugentá-los com a força da mente e dos
braços.
Bem, do ponto de vista objetivo, foram essas minhas
ações. Do ponto de vista subjetivo, e minha descrição a partir de agora deixa
de lado a linearidade cronológica. Experimentei um súbito arrependimento por
ter desperdiçado vários minutos do meu dia com coisas desnecessárias,
irrelevantes. Pensei em como as pessoas agiriam diferente se tivessem uma
consciência mais aguda da finitude da vida. Como alguém que já morreu simbolicamente
várias vezes desde que nasci, a morte sempre foi algo que me fascinou, até pela
sua força intensificadora , em vários aspectos, de promover A VIDA.
Noutros momentos também senti
uma raiva incontida de todos aqueles ex-vivos “que me acompanhavam”. A raiva
veio; as causas que depois atribuí são explicações/interpretações a posteriori.
Algumas: a importância desmesurada que estava sendo dada a eles, a
pressuposição injusta de que muitos ali não souberam valorizar a vida que
tinham, a incomunicabilidade deles! Nonsense, claro. Não sou adepto da Teoria
da Reencarnação e nem da Doutrina Espírita. E também nunca demonstrei
capacidades mediúnicas até agora, embora já tenha tido algumas alucinações
visuais/auditivas com entes humanos por três ou quatro vezes.
Curioso: a raiva começou comigo,
de mim, depois para a humanidade em geral e depois para a “ex-humanidade”. Que
seja. Procuro não ver a morte com resignação, como um fenômeno inseparável da
própria vida. A energia do cemitério era inesperadamente positiva, good vibes
in general. Entoeei alguns mantras, mas não fiz nenhum pedido ao local. Senti-me
o tempo todo estranhamente “protegido”.
Ao passar por um certo túmulo, gradeado por uma cerca
de ferro, pensei à toa: “Essa mulher viveu a vida toda em uma prisão mental e
depois de morta ainda é obrigada a ter o corpo rodeado por grades.” Fui levado
(eu, que não acredito em espíritos) a mentalizar positivo para ela: “Liberte-se
dessas amarras, voe, se liberte! PERCEBA as grades que você constrói ao redor
de si mesma, é você quem se limita! E paz, tenha muita paz!” Depois, sem o
menor direito de fazê-lo, recriminei a família dela. Estranhos impulsos e
achismos. Interpretações arrogantes?