Publicado três anos antes
da cirrositíca morte do autor, Guerra
Dentro da Gente (1986) é um livro didático infanto-juvenil que pode ser
lido sem arrependimentos por qualquer adulto. Os desenhos de aquarela de
Gonzalo Cárcamo são um primor de cores e o texto de Leminski - ainda que escrito em palavras-signos, como todo texto - é sim outro chuveiro de imagens que
banha a imaginação do leitor.
Este
livro, vê-se logo, não é uma típica narrativa moral; está a anoz-luz de querer
ensinar os “modos corretos” para a meninada, está a séculos-luz de qualquer
clichê do gênero e a milênios-luz de subestimar a inteligência dos adolescentes
brasileiros. O mínimo que se podia esperar de uma obra da lavra de Leminski.
A
vida do garoto Baita muda quando
encontra o velho Kutala em uma ponte. É-lhe
ofertada a chance de aprender a arte da guerra, desde que prove ser capaz de decifrar
as palavras de Kutala. O jovem lenhador Baita até recorre à
ajuda do pai, mas não consegue nada além de um tabefe no rosto e o seguinte argumento
para dissuadi-lo: o velho seria um perigoso espírito da floresta. Não dê
ouvidos a ele, Baita!
O
problema era que o garoto, que tão pouco sabia da vida, queria aprender a arte
da guerra. Espírito impalpável ou carne que se toca, Baita acaba que tem baitas
aventuras e desventuras com o enigmático Kutala.
De escravo que alimenta tigres e elefantes em um circo até Chefe de
Guarda de um Imperador, os atos de Baita simbolizam a força de pequenas ações.
Em
Guerra Dentro da Gente, há
traiçoeiragem, há desconfiança, há (a perda da) inocência, há corpos mutilados,
há poeta assassinado, há a simbologia subtextual de vários fatos da história
humana, real e mitológica. Exemplo é o
encontro de Baita e Kutala com um povoado de pescadores de pérolas, uma tribo que vive da mesma maneira que as
bisavós viviam: catando pérolas no fundo do mar tão-somente para entregá-las,
num gesto de subserviência acrítica, a
homens que chegavam dalém-mar vestidos com máscaras de tubarão. “Deuses”
malévolos de outras terras determinando práticas de povos menos avançados
lembra algo? Oh, pobres tradições que se perpetuam sem mudanças. Oh, por quantas sequelas sociais a falta de
contestação não seria responsável? Céus,
o que seria da vida sem rupturas?
Em Guerra Dentro da Gente, tem até analogia búdica! A Princesa
Sidarta, filha do Imperador, é uma jovem que nunca saiu para além dos muros do
palácio, nunca viu pobres, nunca viu
pessoas doentes. nunca ouviu falar da morte. Lembra alguém? Certo dia, a
princesa encastelada em uma vida de fadas é raptada e o sequestro é de uma
realidade avassaladora para ela, um misto de sensações nunca sentidas, vulcão
de sentimentos eruptidos. Sidarta não conseguirá mais viver intramuros e,
cortejada por Baita, também não conseguirá reduzir seu amor - adormecido até
então - a uma só pessoa.
O que Baita achará disso?