quinta-feira, 5 de setembro de 2013

dostoiévski e o leitor

“Imprevísivel” é a palavra correta para definir o chocante final do livro O Idiota, de Fiódor Dostoiévski. Mas, ainda assim, é um termo anódino.  Quando as interpretações só fazem levantar outras interpretações, o que me resta? Falar das minhas proprias reações enquanto lia o final. A minha experiência de leitor retrata a minha crença na impossibilidade de qualquer preparo emocional ou voo de imaginação capazes de predizer as últimas 30 páginas deste livro.  Há spoilers a seguir – escrevi o que escrevi para quem já leu o livro. Leia por sua própria conta e risco.
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Confesso que, afastando o véu da minha predisposição anticlichês, eu internalizara a esperança de um final clássico. É claro que Príncipe Michkin e Aglaia Ivanokóvna se casariam! E esse final feliz não soaria convencional, não depois de sucessões de eventos tão originais, tão tragicômicos.

 Quanto a Rogójin e Nastácia Filippóvna, eu queria que os dois continuassem suas peripécias infindáveis, brigas homéricas, quase-casamentos e tudo o mais que essas trepeças explosivas tivessem direito.
          Oh, pobre leitor ingênuo! Dostoiévski pensou em leitores como você, Igor. E não quis satisfazê-los. Os dois casais que passam a constituir o núcleo da narrativa desmoronaram de tal forma que eu, como pessoa física que lê um livro manuseável em mãos, desmoronei junto. Não falo no sentido alegórico. A vertigem que senti foi real e fruto da leitura; à medida que ia lendo, piorava.
Explico: ao ver que Michkin acabou ficando com Nastácia – e que isso se deu por causa de uma hesitação, uma hesitação vista como àquela “convicção secreta em processo de camuflagem” – meu cérebro entrou em curto-circuito. Pane nos neurotransmissores.
Como leitor, esses momentos finais não foram prazerosos. Não deram gostinho de deleite estético. Pelo contrário, foi uma sessão de tortura psicológica. Não bastasse Nastácia fugir com Rojójin uma hora antes do casamento marcado com o príncipe, não bastasse Rogójin matá-la quando chegaram a Petersburgo, ainda temos que imaginar o príncipe vendo o cadáver da mulher por quem tanto sofreu de compaixão e dormir com o assassino, afagando seus cabelos e acariciando-lhe o rosto!

Levantei todas as hipóteses da Psicanálise. Em vão.
Passou ainda pela minha cabeça a ideia de que Dostoievski estava fazendo uma grande piada sem graça: o príncipe era gay e tinha um caso com Rogójin só revelado ao fim do livro. Era o que me faltava. Mas não; ao invés disso, temos diagnósticos formais de loucura, atribuições causais ortodoxas ao comportamento surreal de Míchkin e Rogójin.
          Que exercício mental Dostoievski consegue impelir a quem o lê. Em meio à magia da narrativa, quem parecia estar com inflamação cerebral era eu, que lia todas essas páginas finais em pé. Meu corpo se arrastava debilmente de um lado para o outro. Rebobina isso tudo! Clamava a voz na minha cabeça, sabendo que textos são irrebobináveis. O conteúdo semântico vai direto para a mente e pronto. Apertar o botão PAUSE e largar o livro? Jamais.
Enquanto descubro que Rogójin está pagando trabalhos forçados em algum canto muito frio daquela parte do mundo próxima à Rússia, minhas pernas parecem fraquejar. Eu não entendia. Por que parece que posso desmaiar a qualquer momento? No sanatório, Liev Nikolaiévtch ficou louco a ponto de não reconhecer Lisavieta Prokófvena. Céus! Leve taquicardia. O que é Aglaia fugindo com um conde em comparação a isso tudo? Um fato irrisório, excessivamente plausível.
          Já tinha me sentido mais forte lendo, mas era a primeira vez que o inverso acontecia. Aqui vem a parte engraçada: o que eu sentia correspondia justamente às sensações psicossomáticas descritas pelo Príncipe Míchkin em certas passagens ao longo do livro. Os rompantes da sua fragilidade psicológica, que eu por vezes desprezei, se assomava agora em mim – 144 anos depois do livro ter sido publicado pela primeira vez.
De pé. Em estado de torpor.
Porque minha boca não fechava,
o meu pensamento não se orientava?
Arrebatado.
Estava completamente arrebatado.

Sentei-me no sofá e suspirei. 

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