O mérito do golaço antológico depende da intenção do jogador de futebol? Para dizer de outro modo, a bela e ambígua trajetória da bola até esvoaçar as redes perde o encanto caso tenha sido sem querer? O debate é antigo no meio futebolístico e os posicionamentos metafísicos que ela pressupõe impedem a possibilidade de se chegar a um consenso final.
- GOL! GOOOL! NO ÂNGULO! - brada um eufórico Ricardo- Nossa, muuuuuito de fora da área!
Passada a vibração, o espírito humano ressurge o dilema na provocação vinda do melhor amigo, o Joaquim, torcedor do outro time, claro.
-Mas, foi de propósito?
A paisagem é clichê: mesa de madeira assentada na calçada e cerveja encasacada com a tradicional camisinha brasileira. Os personagens, atípicos: dois professores de filosofia da universidade local. A liturgia, quase estática: os ritos começavam sempre uma hora antes do jogo e perduravam por uma ou duas horas depois. A igreja, exclusiva: o Bar do Tonhão, o qual estes torcedores religiosos mantinham uma fidelidade que as operadores de telefonia celular e internet sonham diuturnamente ter com seus clientes.
O Ricardo, se torcedor normal, apenas troçaria zombeteiro: o placar 1 x 0 continua 1 x 0, seja o gol contra, de mão, de bunda, de pênalti inexistente, de bola que não passou da linha, de propósito ou não. Mas Ricardo, por benção, maldição ou indiferença, não ligava muito pra “normalidade” e não iria rejeitar o convite do parceiro para pôr em prática a justa argumentação.
- Por todos os orixás e babalorixás, Joaquim! Como saberemos nós? O repórter vai lá perguntar no intervalo: ei, Rodoaldo, você mirou mesmo lá ou tentou cruzar? Rodoaldo vai dizer que sim ou que não. E por causa disso passaremos a saber? Quem não acredita, vai continuar sem acreditar e ainda vai acusá-lo de desonestidade, dirá “que assuma sua glória, mas admita a sorte!”. Quem acredita, pode ser desmentido ou ter as esperanças corroboradas, mas a prova é a voz final do próprio jogador, ser humano também imperfeito, também falível e também não muito confiável. Não mentimos para nós mesmos frequentemente?
Joaquim retrucou entusiasticamente:
-“Temos a arte para não morrer ante a verdade”*, não é isso? Não podemos eliminar a incerteza, de fato, mas não adianta escamotear a questão: foi o acaso que desenhou esse gol? Se assim foi, que beleza ele tem de fato? Se assim foi, Rodoaldo é a marionete que ganhou os créditos, mas poderia ter sido qualquer um. Poderia ter sido você, poderia ter sido eu! Só um maluco tentaria encobrir o goleiro daquela distância, ele lançou a bola pro companheiro de time!
Esvaziando rapidamente sua tulipa, Ricardo sequer permite que o silêncio fique audível:
-Está bem. Gostaria de te recordar de um outro maluco; este, um holandês pintor. Visualize, por favor, os quadros de Van Gogh, o gênio que, suspeitam, era epiléptico, bipolar, o escambau. Talvez não seja, mas leve na hipótese. Estiveste lá no museu dele em Amsterdã. Pronto? Esse quadro fica menos belo se você descobrir que o Van tava em alguma crise mental quando o pintou? Por acaso, fica ele mais belo porque foi pintado por um Van lúcido? Causalidade invertida, Joaquim. Os dedos pintaram a obra-prima, o pé chutou aquela bola, o desenho está em ação! Por todos os orixás e babalorixás, esse mito de que qualquer zé-ninguém é capaz de reproduzir lances que parecem acaso é pura bobagem. O Belo não é redutível dessa maneira! É o fato quem é interpretado, não é a interpretação que vira fato.**
Ricardo se permite uma pausa para tomar fôlego e conclui:
- E, sem ligar para nada disso, a pintura, digo, o gol, está aí nos replays em todas as tevês do país pra quem ligar nesse canal!
Joaquim reflete por um instante, dissecando cada palavra dita pelo companheiro em busca de alguma incongruência. Nada. Reavalia sua opinião inicial. Está prestes a se dar por vencido quando, aos 42 do segundo tempo, Renílson, jogador do seu time – que estava atrás no placar -, dribla três dentro da área, olha pro canto direito do goleiro e...GOOOOOOOOOOOOOOOLLL! Joaquim urra e esmurra o ar.
Ricardo olha enfurecido para a tela pra logo ouvir Joaquim arrematar:
-Por Cristo, Maomé, Buda, Kardec, homem, tu vai querer discutir que esse golaço aí foi sem querer?
Ricardo, ciente de que voltaram à estaca zero, queda em silêncio, esmagado pelo golvisivelmente intencional. Pensa como chateia e entedia a certeza da certeza, como instiga a certeza da dúvida.
Sorumbático, murmura:
-Mas, e a graça do colóquio?
Joaquim mira o parceiro no olho:
-E o que falavas do belo agora há pouco, não conta?
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*Citação do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900)
**Alusão à Nietzsche. Para ele, não havia fenômenos morais, apenas interpretações morais dos fenômenos.
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
O golaço, o dilema e Van Gogh
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