quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Estelit A


Presente, como uma bomba-relógio que nunca estoura, o A, maiúsculo, vermelho, da tinta ideológica que corre nas veias, da matiz sangrenta do pensamento, com os característicos traços que transbordam o caractere A.
Pintado na coxa, pichado nas costas de muros, pedras. Anarquismo concreto. Cruzando a cozinha da ocupação, pula ao meu olho a capa. Desobediência civil. Thoreau. Presente. O anarquismo está presente no Estelita. 

Os discursos proferidos – vociferados em assembleias – não falam a palavra, que é dita, bendita, bem dita, pelo corpo, pelas ações, pela atitude cooperativa, até pelo desmazelo autocentrado. Pura fusão do individualismo e do coletivismo.
Comportamento, enfim, como fim prático sem finalidade fora do alcance, em recomeços e finaliza-ações: armam-se, e amam-se, barracas, desmontam-nas, recolocam-nas noutros espaços. Pratos são lavados para serem sujos ou serão sujos para serem levados? Xô! Sem questões surreais na práxis anarquista. 

Surreal mesmo é o suor real dos que trabalham pela cidade sustentável, razoável, verdejante, refrescante, inclusiva, misturada. O Ocupe Estelita não é um movimento anarquista, mas contém elementos anárquicos indiscutíveis, além de participantes que se autodefinem anarquistas (embora a definição varie, voando de cabeça pra cabeça, em múltiplas conotações). Quem viu, viveu os princípios fundantes: mutualismo, trabalho voluntário, horizontalidade, autogestão, descentralização

Que aprendizados os erros ensinam? Apenas mastigando-os melhor, com atenção lúcida, saber-se-á.
Vamos cartesianizar: 1) prolongamento desgastante das discussões, assembleias que ultrapassam a marca das quatro horas de duração sem chegar sempre a decisões efetivas 2) votações únicas que acontecem em uma assembleia, cujo quorum varia enormemente, são criticadas por não representarem, supostamente, a maioria 3) ¨descontinuísmo¨: decisões referendadas nas assembleias não são levadas a cabo; às vezes sequer começam, outras não vão até o final 4) os diferentes níveis de comprometimento enfraquecem as Comissões, criadas para ORGANIZAR A PRIMEIRA OCUPAÇÃO POLÍTICA-ARTÍSTICA do Brasil

Ora, sem precisar cavar no cérébrio, é justamente o momento onde a energia coletiva (egrégora) se concentra na produção de discursos para o qual o se dirigem minhas maiores críticas.. Sãodiagnoses purulentas de organização. É mister entender o mistério, pois sujeitos autoritários_hierarquizantes_totalitários_centralizadores poderiam se apoiar na experiência dos ocupantes de Estelita (e no seu baixo grau de organização; ¨acuso, logo amo¨) para legitimar a estrutura piramidal que sustenta as complexas nações-Estado contemporâneas. É consciencioso aceitar a verdade de algumas críticas sem se bandear para o posicionamento burguês&dogmático. 
 
CHEGA DE ABSTRAÇÃO! 

Peguemos como episódio a norca, alcunha para a cola de sapateiro, talvez a droga mais usada pelos jovens das comunidades que moram nos arre!DORES do Cais José Estelita. O ritual da norca pode durar o dia todo e faz parte do imaginário: a garrafinha de plástica, que não desgruda da boca, ou do nariz, norcando a mente pelas vias respiratórias. O quadro tem molduras de preconceitos; não gera aversão imediata aos puritanos, moralistas, pudicos e parentes? Sanduíche classemedista de aversão, piedade, medo, nojinho. Este quadro vai tomando a paisagem; a problemática é expandida em discursos geradores de preconceitos ou esclarecimentos.

É apenas um módico exemplo resultando da maior mistura de classes socioeconômicas que já presenciei. Se as palavras de ordem, proclamadas com gargantas ensaguentadas, foram ¨Ocupar! Resistir!¨, as palavras que pressupõem a superação do Apocalipse (que é o estado atual do mundo) são ¨Incluir! Misturar!¨. Levem o pessoal desorganizado do underground ao mainstream, levem a galera alienada do mainstream ao underground. Sim, acredito ser necessário pensar e viver como o Inimigo, a título de experiência.É uma proposta, penso, regida pelo princípio da inevitabilidade de expansão da consciência.

Quem sabe o que pode sair daí?

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