Presente,
como uma bomba-relógio que nunca estoura, o A, maiúsculo, vermelho,
da tinta ideológica que corre nas veias, da matiz sangrenta do
pensamento, com os característicos traços que transbordam o
caractere A.
Pintado
na coxa, pichado nas costas de muros, pedras. Anarquismo concreto.
Cruzando a cozinha da ocupação, pula ao meu olho a capa.
Desobediência civil. Thoreau. Presente.
O anarquismo está presente no Estelita.
Os discursos proferidos –
vociferados em assembleias – não falam a palavra, que é dita,
bendita, bem dita, pelo corpo, pelas ações, pela atitude
cooperativa, até pelo
desmazelo autocentrado. Pura
fusão do individualismo e do coletivismo.
Comportamento,
enfim, como fim prático
sem finalidade fora do alcance, em recomeços
e finaliza-ações:
armam-se, e amam-se,
barracas,
desmontam-nas,
recolocam-nas noutros
espaços. Pratos são lavados
para serem sujos ou serão sujos para serem levados? Xô!
Sem questões surreais na práxis anarquista.
Surreal mesmo é o suor
real dos que trabalham pela cidade sustentável, razoável,
verdejante, refrescante,
inclusiva, misturada.
O Ocupe
Estelita
não é um movimento anarquista, mas contém elementos anárquicos
indiscutíveis,
além de participantes que se autodefinem anarquistas (embora a
definição varie, voando de cabeça pra cabeça, em
múltiplas conotações).
Quem viu, viveu os
princípios fundantes:
mutualismo,
trabalho voluntário, horizontalidade, autogestão, descentralização.
Que aprendizados os erros ensinam? Apenas mastigando-os melhor, com atenção lúcida, saber-se-á.Vamos cartesianizar: 1) prolongamento desgastante das discussões, assembleias que ultrapassam a marca das quatro horas de duração sem chegar sempre a decisões efetivas 2) votações únicas que acontecem em uma assembleia, cujo quorum varia enormemente, são criticadas por não representarem, supostamente, a maioria 3) ¨descontinuísmo¨: decisões referendadas nas assembleias não são levadas a cabo; às vezes sequer começam, outras não vão até o final 4) os diferentes níveis de comprometimento enfraquecem as Comissões, criadas para ORGANIZAR A PRIMEIRA OCUPAÇÃO POLÍTICA-ARTÍSTICA do Brasil.
Ora, sem precisar cavar no cérébrio, é justamente o momento onde a
energia coletiva (egrégora)
se concentra na produção de discursos para o qual o se dirigem
minhas maiores críticas.. Sãodiagnoses purulentas de organização.
É mister entender o mistério, pois sujeitos
autoritários_hierarquizantes_totalitários_centralizadores poderiam
se apoiar na experiência dos ocupantes de Estelita (e no seu baixo
grau de organização; ¨acuso, logo amo¨) para legitimar a
estrutura piramidal que sustenta as complexas nações-Estado
contemporâneas. É consciencioso
aceitar a verdade de algumas críticas sem se bandear para o
posicionamento burguês&dogmático.
CHEGA
DE ABSTRAÇÃO!
Peguemos
como episódio a norca, alcunha para a cola de sapateiro, talvez a droga mais
usada pelos jovens das comunidades que moram nos arre!DORES do Cais
José Estelita. O ritual da norca pode durar o dia todo e
faz parte do imaginário: a
garrafinha de plástica, que não desgruda da boca, ou do nariz,
norcando a mente pelas vias respiratórias. O quadro tem molduras de
preconceitos; não
gera aversão imediata aos
puritanos, moralistas, pudicos e parentes?
Sanduíche classemedista de
aversão,
piedade,
medo, nojinho. Este quadro
vai tomando a paisagem; a
problemática é expandida em
discursos geradores de preconceitos ou esclarecimentos.
É apenas um módico exemplo resultando da maior mistura de classes
socioeconômicas que já presenciei. Se as palavras de ordem,
proclamadas com gargantas ensaguentadas, foram ¨Ocupar! Resistir!¨,
as palavras que pressupõem a superação do Apocalipse (que é o
estado atual do mundo) são ¨Incluir! Misturar!¨. Levem o pessoal
desorganizado do underground ao mainstream, levem a galera alienada
do mainstream ao underground. Sim, acredito ser necessário pensar
e viver como o Inimigo, a título de experiência.É uma proposta, penso, regida pelo princípio da inevitabilidade de expansão da consciência.
Quem sabe o que pode sair daí?
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