quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Palavras difíceis dificultam, mas a dificuldade é sempre uma coisa má?

Proponho uma breve reflexão sobre o Logos (λόγος, palavra).   

Um dos dogmas do texto jornalístico, vim a descobrir enquanto cursava a faculdade, é o uso das palavras simples. Ergo, fáceis e de amplo uso. Não sei se foi a barriga ou o cérebro (acredito que foi a barriga, já que temos neurônios lá também) quem emitiu o primeiro sinal de incômodo. Aceitei o argumento de que o discurso jornalístico deve ser um discurso assimilável e intelígivel para todas as pessoas, pois daí se presume que o contrário é nivelar culturalmente o público-leitor por alto, em processos de exclusão linguística (quem consulta o dicionário ou pergunta à pessoa ao lado quando não entende uma palavra no jornal? pouca gente).

Mas são vários os veículos de informação e diversificados os setores da população que os leem.  O jornal, produto informativo guarda-fezes, deve ser assim, mas isso não pode ser um imperativo categórico universal. E não o é. A Piauí tem suas épocas hardcore, com uso quase abusivo de expressões francesas sem tradução, mas posso apostar que a variabilidade de palavras em suas edições é maior do que qualquer outro veículo de mídia impressa neste país. Intimamente, sempre apostei, e aposto, que isso tem efeitos benéficos. Ao aumentarmos o número de páginas de nosso dicionário mental, estamos simultaneamente aumentando nossa capacidade de pensar criticamente e formular melhor as questões que nos são postas, ou que queremos "postar" (:P). 


Problemáticas complexas não podem ter respostas simples. A Piauí pode até pecar por galicismo  - a primeira vez que li galicismo, só pensei no idioma irlândes, o gaélico, em vias de extinção, apesar do ensino bilíngue; o dicionário me corrigiu: "palavra ou expressão imitada ou tomada da língua francesa para outra língua" -, mas contribui consistentemente para uma formação intelectual e visão de mundo de quem a lê.

Recorrer a arcaísmo, por exemplo, é extremamente malvisto hoje em dia. Perdoável em textos literários (é necessário que o seja, pois na literatura a única ética é a liberdade absoluta, como o disse Eugênio Bucci), mas não em outras esferas. É precisamente esse o ponto que quero chegar. Naquela aula, ingênua ou não a minha visão, eu pensava que sim, deveríamos usar as palavras mais precisas e mais próximas àquilo a que queremos nos referir, independemente de serem fáceis ou difíceis, independentemente do veículo ou do público. A ideia é mais ou menos a de uma inserção sistemática de novas palavras que renovem as formas gastas e estereotipadas do discurso jornalístico tradicional, compreensíveis pelo contexto. Claro que isso não pode ser um projeto ou programa - na verdade, percebi depois, já ocorre espontaneamente, porque humanos são e serão eternamente criativos no uso da linguagem, apesar de superestruturas disciplinadoras-padronizadoras.

Pense no delicioso caos que seria se, de repente, os meios de comunicação de massa começassem a falar plangente em vez de "lamentoso", albalroar em vez de "esbarrar", estafeta no lugar de "mensageiro",  rotundo e não redondo, andrajoso e não esfarrapado, garatuja em vez de "rabisco malfeito", mefistofélico e não diabólico, debuxo em vez "esboço" ou "plano inicial", vetusto no lugar de "velho" ou "antigo", alvitre em vez de proposta, sugestão ou parecer, fâmulo em vez de criado ou funcionário subalterno, opúsculo em vez de "folheto", excisão em vez de "amputação", sege em vez de "carruagem", proxeneta em vez de "cafetão", desazo pra dizer "desmazelo", cúpido em vez de "desejoso" ou "ambicioso", sevícias em vez de "crueldades" ou "maus tratos", bisar no lugar de repetir", obsedar e não "importunar" ou perseguir e and so on and so forth.

 Não posso deixar de citar exemplos superclássicos: ósculos e amplexos (respectivamente, "beijos e abraços"). Claro, usar influição pode até pegar mal, "influência" já não diz tudo? Os mal-entendidos seriam fantásticos. A precariedade da ordem cotidiana mostraria-se mais visível do que nunca - a normalidade de pernas pro ar! Não poucos pensadores já imaginaram o serviço prestimoso que a TV poderia dar, se não dependessem de recursos, audiências, anúncios publicitários e pilantragem pra sobreviver.

E quanto à esfera dos bate-papos entre amigos e as conversas de botequim, de rua, de quarto, de festa? Será esnobismo chamar alguém de mandrião porque ele é preguiçoso, indolente, não trabalha nem estuda (ou vontade de xingar e deixar o outro sem saber que foi ofendido)? Quem entenderá pecúlio para se referir a dinheiro e bens hoje em dia (talvez muitos, visto que pecúnia ainda não sumiu dos textos jornalísticos, mais lidos que os literários)? 


Exemplo: aprecio a palavra inextricável, acho-a bonita, preferível a emaranhado ou enredado, e serve bem pra designar algo complexo e difícil de resolver, decifrar, deslindar. Também não é mais melodioso chamar alguém para um saturnal (bacanau, orgia)? "Ei, tá rolando saturnais lá na casa de um amigo em Candeas, vamos lá!" Discordo da teoria que defende que só os boçais ou herméticos gostam de falar palavras complicadas. [A título de curiosidade, as festas na Roma Antiga em homenagem à Saturno, deus da colheita, não eram, parece, saturnais no sentido que hoje a palavra tem (eram cerimônia religiosas, algumas com sacrifícios de animais.)]


E os falantes que gostam de ampliar seu repertório por puro prazer? Deixarão de fazê-lo porque nem sempre serão compreendidos?

A necessidade de explicar um significado pode provocar efeitos estimulantes ou brochantes, por razões/causas diferentes. Posso gostar de simplesmente enriquecer o vocabulário coletivo, ou posso sentir júbilo pela oportunidade de mostrar-me superior, "sei mais", falo em tom professoral, com sutil desdém por aquele que não sabe que locupletar é ficar rico. Posso brochar porque não gerei efeito imediato pelas minhas palavras, que nenhuma forma de magia exerceram (indicativo de bom caráter, a meu ver), ou, caso oposto, porque sou obrigado a compartilhar meu saber, saber que me diferencia das pessoas pouco cultas, assim descendo um degrau de meu pedestal. Os exageros são cada vez mais raros - duvido que você tenha ouvido alguém falar "vamos nos reunir em derredor da fogueira" (ao redor da, em torno de)? É difícil até que já tenha lido tal tópico frasal; afinal, as diferenças entre a cultura oral e escrita diminuem, resultado da democratização da leitura em nossa sociedade.

Conhecer palavras antes desconhecidas pode ser divertido quando não há esforço (ou até quando há). Pode ser uma necessidade quando se trabalha com isso, pode ser uma chateação infindável quando não nos interessa. O problema não é empregar palavras pouco conhecidas. O problema são os boçais. Os boçais só são boçais porque confundem conhecer com saber. 

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