sábado, 31 de agosto de 2013

'Em uma guerra não há vencedores' (Leminski)

Publicado três anos antes da cirrositíca morte do autor, Guerra Dentro da Gente (1986) é um livro didático infanto-juvenil que pode ser lido sem arrependimentos por qualquer adulto. Os desenhos de aquarela de Gonzalo Cárcamo são um primor de cores e o texto de Leminski - ainda que escrito em palavras-signos, como todo texto - é sim outro chuveiro de imagens que banha a imaginação do leitor.
                Este livro, vê-se logo, não é uma típica narrativa moral; está a anoz-luz de querer ensinar os “modos corretos” para a meninada, está a séculos-luz de qualquer clichê do gênero e a milênios-luz de subestimar a inteligência dos adolescentes brasileiros. O mínimo que se podia esperar de uma obra da lavra de Leminski.
                A vida do garoto  Baita muda quando encontra o velho Kutala em uma ponte. É-lhe ofertada a chance de aprender a arte da guerra, desde que prove ser capaz de decifrar as palavras de Kutala. O jovem lenhador Baita até recorre à ajuda do pai, mas não consegue nada além de um tabefe no rosto e o seguinte argumento para dissuadi-lo: o velho seria um perigoso espírito da floresta. Não dê ouvidos a ele, Baita!
                O problema era que o garoto, que tão pouco sabia da vida, queria aprender a arte da guerra. Espírito impalpável ou carne que se toca, Baita acaba que tem baitas aventuras e desventuras com o enigmático Kutala.  De escravo que alimenta tigres e elefantes em um circo até Chefe de Guarda de um Imperador, os atos de Baita simbolizam a força de pequenas ações.
                Em Guerra Dentro da Gente, há traiçoeiragem, há desconfiança, há (a perda da) inocência, há corpos mutilados, há poeta assassinado, há a simbologia subtextual de vários fatos da história humana, real e mitológica.  Exemplo é o encontro de Baita e Kutala com um povoado de pescadores de pérolas,  uma tribo que vive da mesma maneira que as bisavós viviam: catando pérolas no fundo do mar tão-somente para entregá-las, num gesto de subserviência acrítica,  a homens que chegavam dalém-mar vestidos com máscaras de tubarão. “Deuses” malévolos de outras terras determinando práticas de povos menos avançados lembra algo? Oh, pobres tradições que se perpetuam sem mudanças.  Oh,  por quantas sequelas sociais a falta de contestação não seria responsável? Céus,  o que seria da vida sem rupturas?
Em Guerra Dentro da Gente, tem até analogia búdica! A Princesa Sidarta, filha do Imperador, é uma jovem que nunca saiu para além dos muros do palácio, nunca viu pobres,  nunca viu pessoas doentes. nunca ouviu falar da morte. Lembra alguém? Certo dia, a princesa encastelada em uma vida de fadas é raptada e o sequestro é de uma realidade avassaladora para ela, um misto de sensações nunca sentidas, vulcão de sentimentos eruptidos. Sidarta não conseguirá mais viver intramuros e, cortejada por Baita, também não conseguirá reduzir seu amor - adormecido até então - a uma só pessoa.
O que Baita achará disso? 


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