terça-feira, 22 de abril de 2014

A ida noturna ao cemitério de Camaragibe

Este texto foi postado em um grupo terapêutico no Facebook. E está sendo postado na íntegra no Raios Sinápticos, a fim de que se possa preservar mais seu espírito. Apenas erros gramaticais e sintáticos de desatenção foram retificados.

                Olá a todos!  Após conversar com Zaki e Aurélio sobre um exercício espiritual que fiz na terça-feira (17/12/2013), ouvi dos dois que seria interessante postar aqui uma espécie de relato dessa vivência. Que consistiu basicamente em ficar algumas horas (ilegais?)  no Cemitério de Camaragibe. Aviso que não será uma leitura curta, mas, aos interessados que se identificarem com alguns aspectos do que falarei, ou que tenham algo a contribuir/esclarecer/adicionar às minhas descrições e minhas (in)compreensões, sou-lhes grato de antemão!
                Bem, comecemos pelo começo. Bagwan Shree Rajneesh foi o ponto de partida. Em  um dos seus livros, ele fala de um rito iniciático tântrico realizado há milênios, uma oportunidade de abrir a consciência para um entendimento mais elevado da morte: passar uma noite em claro em um cemitério. Alguns dias depois, lá estava eu, pegando o ônibus Chã de Cruz, levando comigo apenas a roupa do corpo,  a carteira de habilitação (CNH) e o VEM. Desço do ônibus, por volta das 22h45, e caminho uns 200 metros até o cemitério. O portão está trancado, evidente, mas ouço televozes em uma “sala” perto da entrada, já no interior do cemitério, a dois metros do portão. “Segurança vendo a TV”, penso. “Não esperava isso. Mas agora vamos improvisar. Quem sabe ele/ela deixa eu entrar se eu explicar direitinho, com cara de coroinha da igreja, o que quero fazer?” Claro, havia o risco de que me considerassem um necrófilo.

                - Boa noite! Alô! Boa noite!
                Bato palmas, nada. Nem sinal de qualquer agitação. Pressinto que eles deixam o aparelho ligado só para alguém pensar do lado de fora que tem segurança 24 horas. O muro é feito na medida para ser pulado: baixo, não tem cerca elétrica nem cacos de vidro.
                Pulo e pouso no chão, com um baque audível no silêncio da noite nublada, atento à qualquer ruído vindo da minha esquerda. Nada. Vou na direção oposta à guarita. Adrenalina nas veias, sensação de alerta. Sinto-me bem, muito vivo. O imaginário popular costuma visualizar um cemitério como um grande aglomerado de mortos a sete palmos debaixo da terra e muitas cruzes ou lápides & epitáfios. Vemos isso o tempo todo nas cenas de enterro dos filmes. Ali, acredito que a maior parte dos mortos estão acima da terra, em jazigos e câmaras não padronizadas. Pelo contrário, quase superpersonalizadas, com materiais que iam do mármore escuro até tijolo + cimento + tinta branca. Os caminhos entre os jazigos são pavimentados. No geral, apesar da maior parte dos postes de luz não estarem acesos,  o cemitério não estava mergulhado na escuridão.
                A maioria dos epitáfios falava das saudades dos irmãos, primos(as), tios(as), mães, pais, avôs, avós etc. Uma estrela ao lado do dia em que nasceu, uma cruz ao lado do dia que morreu. Minifotografias em forma ovoide em um ou outro jazigo. Caminho devagar, sem pressa nenhuma. Sei que tenho todo o tempo do mundo (=até o amanhecer) para ver cada m² do cemitério.
                Procuro manter um estado de consciência receptivo, aberto, até vazio no limite do possível; evito conjecturar opiniões/previsões sobre o lugar e o futuro; busco sincronizar meu campo energético pessoal com  o campo energético sutil da área. Ouço os sons que vêm dos arrabaldes: o bradar de algum grupelho de bêbados, gritinhos pneumáticos dos automotores, sirenes esporádicas de carros da polícia, vozes de pedestres, o farfalhar de algumas árvores. A lua estava cheia no dia anterior, mas não a vejo hoje por causa das nuvens. No tempo que fiquei lá, só choviscou um pouco.   
                Não foram os ex-vivos e sim seres vivos que produziram, no início, as sensações mais fortes. Em alguns trechos, dezenas de baratas surgiam aparentemente do nada e iam para lá e pra cá perto dos meus pés. Assassinei algumas que se meteram a valentonas, sem peso na consciência. E com muito asco. A certa altura, subi em um jazigo, superfície limpa, sentei em uma postura relativamente meditativa, com a coluna reta e o pescoço alinhado (pernas soltas) e busquei apenas sentir.
                Imagens de um passado distante vieram à  minha cabeça. Nada relevante, vinham como flashes. Curioso notar, porém, que foram coisas que eu não lembrava há muito tempo. Banalidades das quais nem lembro mais até. Até anotaria em algum lugar se tivesse levado papel. Mas não levei, e nem relógio de pulso, pois não queria ter a noção de tempo regulada ali por uma máquina. Tchau Chronos. Olá Kairós.
                Os minutos transcorriam. Sentia-me ainda vivo, estranhamente seguro para quem pensava que ia se “aventurar perigosamente”.  Ora fazia alguns exercícios de respiração, ora de visualização criativa . Saltava de jazigo em jazigo. Sentava em outros lugares. Percorri toda a extensão do cemitério. Aquecimento corporal aqui, outro acolá. Sim, havia um morcego, ou dois, que inventavam de voar muito perto de mim, às vezes circulando um Igor um tanto quanto apavorado que tentava afugentá-los com a força da mente e dos braços.
Bem, do ponto de vista objetivo, foram essas minhas ações. Do ponto de vista subjetivo, e minha descrição a partir de agora deixa de lado a linearidade cronológica. Experimentei um súbito arrependimento por ter desperdiçado vários minutos do meu dia com coisas desnecessárias, irrelevantes. Pensei em como as pessoas agiriam diferente se tivessem uma consciência mais aguda da finitude da vida. Como alguém que já morreu simbolicamente várias vezes desde que nasci, a morte sempre foi algo que me fascinou, até pela sua força intensificadora , em vários aspectos, de promover A VIDA.
                Noutros momentos também senti uma raiva incontida de todos aqueles ex-vivos “que me acompanhavam”. A raiva veio; as causas que depois atribuí são explicações/interpretações a posteriori. Algumas: a importância desmesurada que estava sendo dada a eles, a pressuposição injusta de que muitos ali não souberam valorizar a vida que tinham, a incomunicabilidade deles! Nonsense, claro. Não sou adepto da Teoria da Reencarnação e nem da Doutrina Espírita. E também nunca demonstrei capacidades mediúnicas até agora, embora já tenha tido algumas alucinações visuais/auditivas com entes humanos por três ou quatro vezes.
                Curioso: a raiva começou comigo, de mim, depois para a humanidade em geral e depois para a “ex-humanidade”. Que seja. Procuro não ver a morte com resignação, como um fenômeno inseparável da própria vida. A energia do cemitério era inesperadamente positiva, good vibes in general. Entoeei alguns mantras, mas não fiz nenhum pedido ao local. Senti-me o tempo todo estranhamente “protegido”.
Ao passar por um certo túmulo, gradeado por uma cerca de ferro, pensei à toa: “Essa mulher viveu a vida toda em uma prisão mental e depois de morta ainda é obrigada a ter o corpo rodeado por grades.” Fui levado (eu, que não acredito em espíritos) a mentalizar positivo para ela: “Liberte-se dessas amarras, voe, se liberte! PERCEBA as grades que você constrói ao redor de si mesma, é você quem se limita! E paz, tenha muita paz!” Depois, sem o menor direito de fazê-lo, recriminei a família dela. Estranhos impulsos e achismos. Interpretações arrogantes?


                Após um tempo, o sono começou a bater forte, as pálpebras... as pálpebras...oh, que peso! Consegui afastar Morpheus com minha imaginação e algumas respirações. À medida que o tempo passava eu pensava cada vez menos. O estado de consciência ampliado que pareceu me envolver nas últimas horas foi pouco a pouco se dissolvendo. Passei a perceber o meu organismo e o ambiente ao redor hipermaterialmente. O frescor da experiência acabara. Por alguma razão, senti que não deveria ficar até o dia raiar só porque era isso que tinha programado. “Vou desistir? Não, Igor, não invente de desistir agora. Fique até o final!” Permaneci mais um tempo realmente, até me deparar - talvez porque eu visse que realmente ia aguentar ficar até o amanhecer - que isso seria mais uma vitória egoica fútil do que qualquer outra coisa. Eu tinha a vívida sensação de que não era necessário continuar ali, não precisava, eu não estava aprendendo mais nada, mas ainda não era essa a questão. É bem simples, na verdade: eu sentia que era hora de ir embora, voltar para casa.
Pulei o muro, de volta às ruas vazias da madrugada. Enquanto caminhava na calçada, avaliei que a experiência foi muito mais sensorial do que propriamente emocional. Saldo geral: um exercício para lá de salutar. Perguntei a um pedestre a hora: 3h15. Sem ônibus, caminhei uns quatro quilômetros (faltavam mais uns 9km pra chegar em casa), dormi mais uma hora em cima de mesas de um restaurante em conjunto comercial que margeia a Estrada de Aldeia. Cheguei em casa umas 7h.Acordei bem-disposto, não tive (não costumo ter) pesadelos de qualquer sorte. Também saí com a sensação de que o cemitério de Camaragibe é um lugar cuidado com muito zelo e amor. Apagou-se na minha cabeça a imagem do cemitério como algo “fantasmagórico”, “temível”, “baixo astral” ou qualquer dessas etiquetas estereotipantes.

Sei que, ao traduzir a experiência real em palavras-signo, muita coisa vai sempre deixar de ser comunicada. Sempre faltará algo, algo para o qual não encontrei as metáforas ou palavras-chave adequadas, que transmitissem na butija algumas sensações/impressões. De qualquer modo, valeu por ter me lido até aqui! Espero que este relato tenha servido de gatilho para reflexões úteis, desconstruções mentais ou para rememorar vivências. A propósito, quando morrer - já deixei claro à família desde que era criança -  quero ser cremado. É isso. Namastê!

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