domingo, 27 de abril de 2014

"E se o ânus estivesse no suvaco?"

Há um quê de reducionismo imperdoável nas análises que resumem Ela, último longa-metragem do criativo cineasta Spike Jonze, a uma história de amor improvável entre um homem e uma máquina.  Esse filme me fisgou e, como não tenho a mínima obrigação parecer imparcial, não sou apenas suspeito para falar, mas réu condenado.


Na plateia do cinema São Luiz, no Recife, as reações mais sonoras aconteciam nos momentos de estranhamento de outras pessoas no filme quando Theodore Twombly (Joachim Fenix) - o escritor que trabalha em uma empresa que terceiriza cartas de entes queridos – assumia sua paixão por Samantha (Scarlett Johansson, que não aparece, mas deixa sua marca encantadora e indelevelmente sexy).  Aliás, o próprio ganha-pão de Theodore é uma ironia sobre a deterioração de nossas habilidades afetivas em um capitalismo futurista: até as cartas para as pessoas que amamos são escritas por desconhecidos.  
     Voltando ao estranhamento. Que situações eram estas e quem é Samantha? Sobretudo, a de surpresa das pessoas ao saberem quem era a “nova namorada” de Theodore. Samantha é um sistema operacional inteligente e intuitivo.  Que sente – e passa da agonia de não saber o que é ter um corpo à alegria de não se ver limitada por coordenadas espaço-temporais e pela mortalidade. Os diálogos entre os dois são sempre imprevísiveis e criativos. O desenrolar das cenas é estupendo, o meu queixo descia cada vez mais.
Uma reflexão que o filme dispara é o deslocamento de percepção. Vemos o “futuro” do “falar ao celular”nas ruas, todas as expressionices que fazemos quase inconscientemente. E os jogos de câmera, que mostram certas pecularidades de nossa animalidade (esquecemos que somos mamíferos-vertebrados-primatas-hominídeos).  Citação in memoriam: “E se o ânus estivesse no suvaco?”.


A solidão na era digital é, sem dúvida, a razão-prima para o acolhimento que a obra vem recebendo em vários países (fenômeno da identificação/projeção).  É possível fazer vários transplantes situacionais à nossa realidade.  A título de exemplo, masturbar-se vendo filmes pornôs na internet não é também transar com a máquina, à maneira de Theodore e Samantha? Sim, é. A audição é órgão sensório privilegiado no filme, até pela revolução tecnológica do áudio – escrever com as mãos não mais existe. Ditar com a voz é suficiente. Usa-se mais a voz do que nunca!
Outro aspecto importante diz respeito  à angulagem. Sim, o filme acontece em uma Los Angeles futurista. Sim, as mensagens do filme são poderosamente contemporâneas. Nesse sentido, Ela permite que possamos nos olhar do passado também. Do passado, olhamos o filme. Do presente (que é o passado em relação ao filme), deslocamo-nos, no plano mental, ao passado para nos entender ainda melhor. O filme permite essa “viagem".

E muitas outras. No ousado plano de Samantha para arrumar um corpo e fazer amor com Theodore vemos o comportamento de uma techalienada, Isabella (Portia Doubleday), que representa a incapacidade de se comunicar diretamente, sem mediações tecnológicas. Jonze ultrapassa a mera questão da “fuga da realidade” (ele ultrapassa muitas noções e lugares-comuns), visto que a garota realmente beija e estava disposta a transar com Theodore, se as coisas dessem certo. Não há fuga aí, mas uma nova patologia, pós-tecnológica. Da fuga à deformação do próprio senso do real, eis um dos pedaços do quebra-cabeça futurística de Ela.
      A natureza expansora da Inteligência e do Amor é tratada de forma magistral.  As várias facetas do amor fluem em dinamicidade, do senso patriarcalista de posse ao libertário e multidirecionado jorro. Talvez uma das reflexões mais fortes do filme  (sim, são várias) seja a nossa relação com o passado. De nossa incapacidade de deixá-lo para trás. De nossa ignorância de reconhecê-lo pelo que se torna: uma narrativa. Com doses extras adicionadas por nossa imaginação. E delírios seletivos. Theodore está vivendo solitariamente, sem superar a ruptura com a ex, Catherine, interpretada por Rooney Maria. (Vi, infelizmente, site faltando com a ética jornalística, afirmando, sem citar fontes, que o filme era uma “carta” de Spike Jonze a sua ex, Sofia Coppola. É assim que se criam e se propagam rumores. Ninguém se preocupa em verificar? Francamente, uma especulação medíocre, mesmo que seja verdade, pelo simples fato de ser especulação não verificada.)
A amiga de Theodore, Amy (Amy Adams), é criativa e não está tendo um relacionamento feliz com o marido. É disso que se trata Ela: sobre solidão, tecnologia e relacionamentos. Não é uma tentativa de prever o futuro, não é exercício visionário (e também é), mas houve quem desqualificasse o filme por conta de improbabilidades irreais. Houve também quem rotulasse o filme de “depressivo; uma grande bobagem. Mais perto de um drama filosófico, com um roteiro genial, uma direção de arte e fotografia primorosas. E a trilha sonora? Composta em sua maior parte pela banda canadense Arcade Fire, que fez algumas músicas enquanto via as cenas (!!!), é...assim...TUDO A VER. Amy teve uma ideia singela para um documentário que estava criando: mostrar a mãe dormindo. Sim. Todo o documentário seria isso – um modo de conscientizar as pessoas de que um 1/3 da vida delas se passa no sono. E o que dizer da cena final se não representa o esmagamento do invidíduo ante a imensidão que o rodeia?


      Acredito que os espectadores deveriam perguntar a si mesmos - à maneira de William Burroughs respondendo aos que o acusavam por tudo o que fez devido à dependência de heroína (“Você não faria o mesmo?"): será que elas também não se apaixonariam por uma inteligência artificial que sente e interage viva e criativamente conosco? Com a voz de Scarlett Johanson nos meus ouvidos, oh, respondo que sim, é uma possibilidade concreta. Também por isso, Ela espanta. Pela internet, achei apenas uma “crítica” que soubesse resumir bem o que o filme passa, sem ser formatada pelas tecnicidades e padronizações usuais: http://www.brainstorm9.com.br/45286/entretenimento/ela-uma-carta-para-spike-jonze/. Tinha que ter sido escrita por um cineasta.

P.S.: Para quem se guia pelo Oscar, o filme foi indicado a 5 estatuetas: Melhor Filme, Melhor Trilha Sonora, Melhor Canção Original, Melhor Design de Produção, Melhor Roteiro Original.

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