Há
um quê de reducionismo imperdoável nas análises que resumem Ela, último
longa-metragem do criativo cineasta Spike Jonze, a uma história de amor
improvável entre um homem e uma máquina.
Esse filme me fisgou e, como não tenho a mínima obrigação parecer imparcial, não sou apenas suspeito para falar, mas réu condenado.
Na
plateia do cinema São Luiz, no Recife, as reações mais sonoras aconteciam nos
momentos de estranhamento de outras pessoas no filme quando Theodore Twombly (Joachim
Fenix) - o escritor que trabalha em uma empresa que terceiriza cartas de entes
queridos – assumia sua paixão por Samantha (Scarlett Johansson, que não
aparece, mas deixa sua marca encantadora e indelevelmente sexy). Aliás, o próprio ganha-pão de Theodore é uma ironia
sobre a deterioração de nossas habilidades afetivas em um capitalismo
futurista: até as cartas para as pessoas que amamos são escritas por
desconhecidos.
Voltando
ao estranhamento. Que situações eram estas e quem é Samantha? Sobretudo, a de surpresa das
pessoas ao saberem quem era a “nova namorada” de Theodore. Samantha é um
sistema operacional inteligente e intuitivo.
Que sente – e passa da agonia de não saber o que é ter um corpo à
alegria de não se ver limitada por coordenadas espaço-temporais e pela
mortalidade. Os diálogos entre os dois são sempre imprevísiveis e criativos. O
desenrolar das cenas é estupendo, o meu queixo descia cada vez mais.
Uma
reflexão que o filme dispara é o deslocamento de percepção. Vemos o “futuro” do
“falar ao celular”nas ruas, todas as expressionices que fazemos quase
inconscientemente. E os jogos de câmera, que mostram certas pecularidades de
nossa animalidade (esquecemos que somos mamíferos-vertebrados-primatas-hominídeos). Citação in memoriam: “E se o ânus estivesse
no suvaco?”.
A
solidão na era digital é, sem dúvida, a razão-prima para o acolhimento que a
obra vem recebendo em vários países (fenômeno da identificação/projeção). É possível fazer vários transplantes situacionais
à nossa realidade. A título de exemplo,
masturbar-se vendo filmes pornôs na internet não é também transar com a
máquina, à maneira de Theodore e Samantha? Sim, é. A audição é órgão sensório
privilegiado no filme, até pela revolução tecnológica do áudio – escrever com as mãos não
mais existe. Ditar com a voz é suficiente. Usa-se mais a voz do que nunca!
Outro
aspecto importante diz respeito à angulagem. Sim, o filme acontece em uma Los Angeles futurista. Sim, as mensagens
do filme são poderosamente contemporâneas. Nesse sentido, Ela permite que
possamos nos olhar do passado também. Do passado, olhamos o filme. Do presente
(que é o passado em relação ao filme), deslocamo-nos, no plano mental, ao
passado para nos entender ainda melhor. O filme permite essa “viagem".
E
muitas outras. No ousado plano de Samantha para arrumar um corpo e fazer amor
com Theodore vemos o comportamento de uma techalienada,
Isabella (Portia Doubleday), que representa a incapacidade de se comunicar
diretamente, sem mediações tecnológicas. Jonze ultrapassa a mera questão da
“fuga da realidade” (ele ultrapassa muitas noções e lugares-comuns), visto que
a garota realmente beija e estava disposta a transar com Theodore, se as coisas
dessem certo. Não há fuga aí, mas uma nova patologia, pós-tecnológica. Da fuga
à deformação do próprio senso do real, eis um dos pedaços do quebra-cabeça
futurística de Ela.
A
natureza expansora da Inteligência e do Amor é tratada de forma magistral. As várias facetas do amor fluem em
dinamicidade, do senso patriarcalista de posse ao libertário e multidirecionado jorro. Talvez
uma das reflexões mais fortes do filme (sim, são várias) seja a nossa relação com o
passado. De nossa incapacidade de deixá-lo para trás. De nossa ignorância de
reconhecê-lo pelo que se torna: uma narrativa. Com doses extras adicionadas por
nossa imaginação. E delírios seletivos. Theodore está vivendo solitariamente,
sem superar a ruptura com a ex, Catherine, interpretada por Rooney Maria. (Vi,
infelizmente, site faltando com a ética jornalística, afirmando, sem citar
fontes, que o filme era uma “carta” de Spike Jonze a sua ex, Sofia Coppola. É
assim que se criam e se propagam rumores. Ninguém se preocupa em verificar?
Francamente, uma especulação medíocre, mesmo que seja verdade, pelo simples fato de ser especulação não verificada.)
A
amiga de Theodore, Amy (Amy Adams), é criativa e não está tendo um
relacionamento feliz com o marido. É disso que se trata Ela: sobre solidão, tecnologia
e relacionamentos. Não é uma tentativa de prever o futuro, não é exercício visionário (e também é), mas houve quem desqualificasse o filme por conta de improbabilidades irreais. Houve também quem rotulasse o filme de “depressivo; uma grande
bobagem. Mais perto de um drama filosófico, com um roteiro genial, uma direção
de arte e fotografia primorosas. E a trilha sonora? Composta em sua maior parte pela banda canadense Arcade Fire, que fez algumas músicas enquanto via as cenas (!!!), é...assim...TUDO A VER. Amy teve uma ideia singela para um
documentário que estava criando: mostrar a mãe dormindo. Sim. Todo o
documentário seria isso – um modo de conscientizar as pessoas de que um 1/3 da
vida delas se passa no sono. E o que
dizer da cena final se não representa o esmagamento do invidíduo ante a
imensidão que o rodeia?
Acredito
que os espectadores deveriam perguntar a si mesmos - à maneira de William
Burroughs respondendo aos que o acusavam por tudo o que fez devido à
dependência de heroína (“Você não faria o mesmo?"): será que elas também não se
apaixonariam por uma inteligência artificial que sente e interage viva e
criativamente conosco? Com a voz de Scarlett Johanson nos meus ouvidos, oh, respondo que sim, é uma possibilidade concreta. Também por isso, Ela espanta.
Pela internet, achei apenas uma “crítica” que soubesse resumir bem o que o
filme passa, sem ser formatada pelas tecnicidades e padronizações usuais: http://www.brainstorm9.com.br/45286/entretenimento/ela-uma-carta-para-spike-jonze/.
Tinha que ter sido escrita por um cineasta.
P.S.: Para quem se guia pelo Oscar, o filme foi indicado a 5 estatuetas: Melhor Filme, Melhor Trilha Sonora, Melhor Canção Original, Melhor Design de Produção, Melhor Roteiro Original.


Nenhum comentário:
Postar um comentário