terça-feira, 22 de abril de 2014

Texto abstruso, mal-escrito e com uma mensagem malpassada


                Enquanto penso em escrever esta frase: “não vemos com os nossos próprios olhos”, penso no quão pretensiosas são as sentenças formuladas na primeira pessoa do plural.  Passei muito tempo vendo com outros olhos, olhos outros, dos outros. Construí várias hipóteses para esse olhar emprestado/ olhar que não olha, olhar imaculado, espúrio. Psiquicamente em frangalhos. Olhar estandardizado, pré-fabricado pela consciência coletivas ou por forças inconscientes (im)pessoais.
                Não estou tendo nenhum insight ou exsight. Talvez esteja abrindo minha trilha textual, a trancos e barrancos, para falar de minha descoberta do olhar fenomenológico e ainda introduzir críticas aos facebookianos. Mas permitam-me ser mais evasivo. Falo de achar, por exemplo,
o abridor de garrafa de vinho na gaveta repleta de metais, facas, garfos, talheres, enfim,  tudo que faz tim-tim quando a gente bate um no outro, nos outros, dos outros. Quando precisamos localizar algo na tão chamada realidade objetiva surge a necessidade de olhar com nossos olhos. O objetivismo se impõe ao nosso subjetivismo, como um avalanche aos alpinistas.
                Exemplo pra lá de prosaico (mas, ei, é melhor do que a agulha no palheiro). Posso ir mais além, e particularmente, ir logo à questão que me interessa diretamente: o problema da valoração. Isso mesmo. E não, não estou desviando do tema. Alguém que lê uma obra e não sabe dizer se ela tem qualidade ou não, não sabe como hierarquizar as próprias preferências consoante as próprias sensações corpóreas/crivo intelectual. Este alguém. Essa entidade que conjuro agora em palavra e você pensa em todos os conhecidos do seu mund(o)(inho)(ão), menos em você mesmo. Este alguém precisa ler críticas, precisa sentir a aprovação do grupo, precisa da anuência da autoridade mais próxima etc. Típico caso do instinto de rebanho nietzscheano.
                Peguemos mais um exemplo ordinário. Veem-se as relações entre postadores, posts e leitores nas redes sociais. Quem curte depois que vê o “número de curtidas”, quem constrói a “própria” opinião depois que ela já foi referendada pela maioria, etcetera e etcetera e cacetera! Ovelhasnautas conformadas? Com preguiça de pensar? Indisposição? Medo de ir contra a corrente? Hábito inconsciente, não examinado? Pode-se tirar conclusões a respeito disso?
Eu não tiro. Evito tirar conclusões. Prefiro a interrogação ao ponto final

.


A fenomenologia ensina algo nesse sentido. A experiência mais psicodélica que tive, sem ter ingerido um psicodélico, foi justamente após a leitura de um livro pequeno do Edmund Husserl. Ñão lembro o nome, ele expunha sua teoria fenomenológica. Não li da primeira linha à última; porém, o pouco mais de uma hora de leitura provocou impacto tão significativo em  mim que jamais esqueço o momento em que saí do Templo Signíco Papelesco da Católica. Em frente à biblioteca, o jardim, palácio natural.
E eu. 
OLHANDO  a realidade de modo mais REAL. Segui a pista do “temos que voltar às coisas em si-mesmas”. Uma limpeza – do concreto ao abstrato, da visão i(mediata) ao processo de pensamento, racionalização e abstração. Uma microrrevolução. Era incrível. Voltar a olhar para as coisas como se eu não fosse um observador, como se eu não estivesse presente.
Buscava detalhes, nuances, mais detalhes, outros detalhes dos detalhes, dos outros detalhes.
Para quê?

Não sei?

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